Área de superfície corporal
A estimativa da área de superfície corporal (ASC) está presente na literatura científica desde o final do século XIX, quando Meeh, em 1879, propôs uma fórmula para tal. Ao longo dos séculos XX e XXI, mais de 40 fórmulas diferentes foram propostas para esse cálculo, cada uma com metodologia própria e baseada em dados de populações distintas.
A ASC tem relevância clínica em diferentes cenários, sendo utilizada para o cálculo da dose de alguns quimioterápicos, antivirais e antibióticos, com o objetivo de evitar toxicidade e/ou atingir a dose terapêutica.. Na cardiologia é utilizada como forma de ajustar a medida de débito, servindo para classificar pacientes portadores de insuficiência cardíaca quanto à fração de ejeção. Na nefrologia, a ASC é utilizada para ajustes de equações para avaliar a função renal. No contexto da terapia intensiva pode ser utilizada para cálculos na terapia de oxigenação extra-corpórea (ECMO). Além de ser útil para estimativa de taxa metabólica basal, volume de distribuição de drogas, composição corporal, dose de radioterapia e para avaliar índice de órgão para pacientes candidatos a transplante.
Grande parte dos usos clínicos da ASC é realizada para a normalização dos dados para uma área de 1,73 m². Esse valor foi proposto por McInstoch et al, com base na média encontrada em homens e mulheres de 25 anos de idade em um banco de dados dos Estados Unidos, em 1928. Desde então vem sendo utilizado de forma arbitrária e há possibilidade de gerar erros de estimativa. Apesar de críticas para ajustes para outras populações, a adoção de um valor acaba sendo útil como forma de comparação de diferentes populações separadas geograficamente e temporalmente.
As diferentes fórmulas propostas indicam a dificuldade de se estabelecer um único mecanismo para a estimativa da ASC. A maioria delas utiliza dados de peso e altura do indivíduo para o cálculo. Uma das mais antigas foi proposta pelos Du Bois em 1916 e serviu de inspiração para diversas outras que surgiram posteriormente: uso de um fator de uma constante (C) multiplicada pelo peso e a altura, e cada um deles ajustado de forma exponencial, por outra variável.
Uma variação desse modelo foi proposta por Mosteller et al., na qual se emprega a raiz quadrada da divisão em que o numerador é o peso multiplicado pela altura e o denominador é a constante de 3600. Tal proposta foi a simplificação da fórmula, proposta por Gehan e George em 1970, que utiliza o padrão clássico. Esta adaptação teve o intuito de facilitar o cálculo durante a prática clínica utilizando uma calculadora comum.
Embora já existam dispositivos eletrônicos capazes de realizar escaneamento corporal em três dimensões e calcular a área de superfície corporal de forma mais precisa, o uso das fórmulas para ASC ainda é amplamente utilizado na prática clínica. Nesta página, disponibilizamos a calculadora para as estimativas propostas por Du Bois, Haycock e Mosteller.
Área de Superfície Corporal
Interpretação*:
O cálculo da ASC não apresenta pontos de corte a serem utilizados, mas sim seus valores são adotados em diferentes contextos clínicos.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
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