Nefrogeriatria
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 29/11/2024
Atualização: 20/05/2026
A nefrogeriatria é uma área do conhecimento voltada para alterações renais decorrentes do envelhecimento. Por sua vez, este provoca mudanças importantes em vários sistemas do organismo, incluindo o sistema renal. Entre os 30 e os 80 anos, estima-se uma perda de aproximadamente 20% a 25% da massa renal. Além disso, ocorre redução progressiva do clearance de creatinina, com queda média de 0,75 ml/min por ano entre os 30 e os 90 anos.
Essas alterações favorecem o comprometimento da função renal no idoso. Então, entre as principais mudanças anatomofuncionais estão:
– Redução da perfusão renal
– Diminuição da taxa de filtração glomerular
– Glomeruloesclerose e expansão mesangial
– Alterações tubulares
– Fibrose intersticial
– Dificuldade no equilíbrio hidroeletrolítico
O risco de hipoperfusão renal também aumenta devido à presença frequente de aterosclerose, doenças cardiovasculares e disfunção autonômica.
A doença renal crônica (DRC) está associada à redução da capacidade física e funcional dos idosos. Além disso, muitos pacientes apresentam piora significativa da qualidade de vida. A prevalência de fragilidade também é maior em idosos com DRC. Ademais, nesses pacientes, é comum observar associação com:
– Maior dependência funcional
– Redução da mobilidade
– Risco aumentado de quedas
Além disso, pacientes idosos com doença renal crônica podem apresentar:
– Osteoporose grave
– Pior desempenho cognitivo
– Complicações cardiovasculares
– Alterações nutricionais
– Hospitalizações recorrentes
– Aumento da mortalidade
Estudos mostram que, a cada década de vida, o risco de desenvolver DRC aumenta aproximadamente 2,5 vezes. Assim, esse dado reforça a relação entre envelhecimento e deterioração da função renal.
A avaliação da função renal em idosos representa um desafio clínico importante. Isso ocorre pela alta prevalência de:
– Multimorbidade
– Polifarmácia
– Sarcopenia
Além disso, a perda de massa muscular interfere diretamente nos níveis séricos de creatinina. Como consequência, alguns idosos podem apresentar comprometimento renal sem alterações laboratoriais tão evidentes. Tais alterações podem dificultar a interpretação de resultados das equações para estimativa da função renal (como a Cockcroft-Gault e CKD-EPI).
Outro ponto relevante envolve as alterações na relação albumina-creatinina, frequentemente utilizada para definir doença renal crônica. Atualmente, existe debate na literatura sobre possíveis adaptações dos critérios diagnósticos da DRC em idosos, já que a evolução clínica pode diferir significativamente em comparação com adultos mais jovens.
O momento ideal para iniciar terapia renal substitutiva em idosos ainda gera discussões. Nos últimos anos, observa-se aumento da adoção de estratégias conservadoras, principalmente em pacientes frágeis e com múltiplas comorbidades.
Por outro lado, o aumento da sobrevida de idosos transplantados renais também traz novos desafios clínicos. Esses pacientes necessitam de acompanhamento contínuo devido às particularidades do envelhecimento, da imunossupressão e das complicações relacionadas ao transplante renal.
Sugestões de leitura:
Garasto S, Fusco S, Corica F, Rosignuolo M, Marino A, Montesanto A et al. Estimating glomerular filtration rate in older people. Biomed Res Int 2014; 2014: 916542. https://doi.org/10.1155/2014/916542
KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int 2024; 105(4S):S117-S314. https://doi.org/10.1016/j.kint.2023.10.018
Noronha IL, Santa-Catharina GP, Andrade L, Coelho VA, Jacob-Filho W, Elias RM. Glomerular Filtration in the aging population. Front Med 2022; 9: 769329. https://doi.org/10.3389/fmed.2022.769329