Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 13/12/2024
Atualização: 09/04/2026
A disfagia (do grego dys – dificuldade e phagein – comer) em idosos é uma alteração da deglutição caracterizada pela dificuldade de transportar alimentos, líquidos ou saliva da boca até o estômago de forma segura e eficiente. Logo, esse processo depende da integração entre funções motoras, sensitivas e aspectos psicológicos.
A deglutição é fundamental para a manutenção da vida, pois permite a nutrição e a hidratação do organismo. Quando ocorre alteração em qualquer etapa desse processo, pode surgir a disfagia, uma condição que nunca deve ser considerada normal, independentemente da idade.
Como funciona o processo de deglutição?
A deglutição envolve etapas coordenadas que podem ser divididas em fases voluntárias e involuntárias.
Fases voluntárias:
– Fase pré-oral: envolve a preparação do alimento, incluindo escolha, percepção, organização e transporte até a boca.
– Fase oral: corresponde à mastigação e ao deslocamento do alimento pela língua até a região posterior da cavidade oral.
Fases involuntárias:
– Fase faríngea: ocorre o transporte do alimento pela faringe, com proteção das vias respiratórias.
– Fase esofágica: envolve a passagem do alimento pelo esôfago até o estômago.
Alterações em qualquer uma dessas fases podem comprometer a segurança da alimentação e caracterizar disfagia.
Disfagia e envelhecimento: o que é presbifagia?
Durante o envelhecimento, algumas mudanças fisiológicas podem ocorrer no processo de deglutição. Entre elas estão a lentificação da resposta motora, maior esforço durante as refeições e aumento do tempo necessário para alimentação.
Esse conjunto de alterações fisiológicas relacionadas ao envelhecimento é chamado de presbifagia. Entretanto, a presbifagia não deve ser confundida com disfagia. A disfagia representa uma alteração patológica que aumenta o risco de complicações clínicas.
Sinais de alerta para disfagia em idosos
Os principais sinais de alerta incluem:
– Tosse durante a alimentação ou ao engolir saliva
– Engasgos frequentes
– Sensação de alimento parado na garganta
– Alteração da voz após a deglutição
– Dor ao engolir
– Cansaço durante as refeições
– Permanência de alimentos na boca após a refeição
– Tempo prolongado para alimentação (superior a 30 minutos)
– Pneumonias recorrentes
– Evitação de refeições em grupo por dificuldade alimentar
A identificação desses sinais deve motivar investigação clínica adequada.
Tipos de disfagia
A disfagia pode ser classificada conforme a localização da alteração em disfagia orofaríngea e disfagia esofágica.
Disfagia orofaríngea (alta): também chamada de disfagia de transmissão, está relacionada às fases iniciais da deglutição. Assim, seus sinais têm relação com sintomas altos:
– Tosse durante a alimentação
– Engasgos
– Aspiração de alimentos ou líquidos
– Alterações na voz
– Dificuldades para iniciar a deglutição
Disfagia esofágica (baixa): conhecida como disfagia de condução, ocorre na fase esofágica. Devido a isto, os sintomas mais comuns ocorrem já na passagem do conteúdo pelo esôfago:
– Sensação de alimento parado
– Entalo
– Dificuldade na progressão do alimento
– Desconforto após engolir
Principais causas de disfagia em idosos
A disfagia não é uma doença isolada, mas um sintoma associado a diferentes condições clínicas. Entre as principais causas estão:
– Doenças neurológicas: Doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento, alterações cognitivas, acidente vascular cerebral (AVC)
– Distúrbios motores: Dismotilidade esofágica
– Alterações anatômicas: Divertículo de Zenker, acalásia, estenose esofágica, neoplasias de cabeça e pescoço
– Outras causas: Doença do refluxo gastroesofágico, medicamentos, radioterapia, cirurgias, infecções (como citomegalovírus, botulismo e difteria).
Consequências da disfagia em idosos
Quando não identificada e tratada adequadamente, a disfagia pode causar:
– Alterações da nutrição
– Desidratação
– Risco aumentado de broncoaspiração e pneumonia aspirativa
– Isolamento social
– Perda de funcionalidade
Apesar da relevância clínica, a disfagia ainda é frequentemente subdiagnosticada, pois muitas vezes não é investigada de forma ativa na prática clínica.
Relação entre sarcopenia e disfagia
A sarcopenia pode contribuir para alterações da deglutição em idosos, principalmente em estágios avançados.
A redução da força muscular pode comprometer músculos envolvidos na mastigação e deglutição, levando a:
– Maior número de deglutições necessárias
– Redução da eficiência alimentar
– Maior risco de engasgos e aspiração
Como avaliar disfagia em idosos?
A avaliação deve ser cuidadosa e multidisciplinar. A investigação pode incluir:
– História clínica detalhada
– Avaliação clínica da deglutição
– Aplicação de instrumentos de rastreio, como o EAT-10
– Avaliação da segurança alimentar
Exames instrumentais quando indicados, como videofluoroscopia da deglutição e avaliação endoscópica da deglutição.
Tratamento e manejo da disfagia
O manejo da disfagia em idosos deve ser individualizado e envolve diferentes profissionais da saúde.
A abordagem pode incluir:
– Definição de estratégias seguras de alimentação
– Ajuste da consistência dos alimentos
– Uso de espessantes quando indicado
– Orientações nutricionais
– Reabilitação fonoaudiológica
A participação do fonoaudiólogo é fundamental na avaliação e reabilitação das alterações relacionadas à deglutição.
Perguntas frequentes:
Disfagia é normal no envelhecimento?
Não. O envelhecimento pode causar presbifagia, mas a disfagia representa uma alteração clínica que necessita de investigação.
Quais sintomas indicam disfagia?
Engasgos, tosse durante refeições, alteração da voz, alimento parado na garganta e pneumonias recorrentes são sinais importantes.
Qual profissional avalia disfagia?
A avaliação geralmente envolve uma equipe multidisciplinar, com destaque para o fonoaudiólogo.
O que é o EAT-10?
O EAT-10 é um instrumento utilizado para rastrear sintomas de disfagia e auxiliar na identificação de pacientes que necessitam de avaliação especializada.
Sugestões de leitura:
Humbert IA, Robbins J. Dysphagia in the elderly. Phys Med Rehabil Clin N Am 2008; 19(4): 853-66. https://doi.org/10.1016/j.pmr.2008.06.002.
Salvador LSA, Rodrigues TMP, Rocha IARS. Instrumentos de avaliação da deglutição em adultos: revisão integrativa da literatura. Rev Baiana Enferm 2024; 38: e57111. https://doi.org/10.18471/rbe.v38.57111.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Dificuldades de alimentação na pessoa idosa [livro eletrônico]: cartilha para orientações práticas para familiares e cuidadores. Rio de Janeiro/RJ: SBGG; 2026.

