Mini-exame do Estado Mental (Mini-Mental)
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 26/09/2024
Atualização: 26/03/2026
O Mini Exame do Estado Mental (MEEM), também conhecido como Mini-Mental, foi proposto por Folstein & Folstein em 1975. Trata-se de um instrumento de rápida aplicação, geralmente realizado entre cinco e dez minutos, desenvolvido para o rastreio de alterações da cognição em pacientes. É amplamente utilizado na prática clínica e acadêmica como ferramenta de rastreio inicial para identificação precoce, especialmente em idosos.
Sua abordagem “mini” deve-se por concentrar-se exclusivamente nos aspectos cognitivos, excluindo questões relacionadas ao humor e outras alterações mentais ou de pensamento.
Apesar de sua relevância, é importante destacar que o MEEM não substitui avaliações neuropsicológicas completas. Sua principal função é fornecer uma visão geral do funcionamento cognitivo, podendo ser complementado por instrumentos específicos para cada domínio.
O MEEM é dividido em duas etapas principais, avaliando diferentes domínios cognitivos. A primeira etapa exige apenas respostas verbais e inclui:
– Orientação temporal
– Orientação espacial
– Memória imediata
– Atenção e cálculo
– Memória de evocação
Na segunda etapa, são utilizados papel e caneta ou meios virtuais, para avaliar habilidades relacionadas à linguagem e praxia:
– Nomeação
– Repetição
– Compreensão de comandos verbais
– Execução de comandos escritos
– Produção de frase escrita
– Cópia de desenho
A pontuação total do MEEM varia de 0 a 30 pontos, sendo utilizada como referência para o rastreio cognitivo.
Para garantir a validade da avaliação, é fundamental seguir algumas recomendações durante a aplicação do instrumento:
– Estabelecer um bom vínculo com o paciente antes do início
– Explicar claramente os objetivos do exame
– Evitar interferências externas durante a aplicação
– Orientar que acompanhantes não auxiliem nas respostas
Essas medidas aumentam a confiabilidade dos resultados e reduzem o risco de vieses na avaliação.
O Mini Exame do Estado Mental é um dos instrumentos mais utilizados na avaliação cognitiva de idosos, devido à sua praticidade e rápida aplicação. Ele permite identificar alterações cognitivas iniciais e orientar a necessidade de investigação mais aprofundada, sendo uma ferramenta essencial para profissionais e estudantes da área da saúde.
Mini-exame do Estado Mental (MEEM)
1 – Orientação temporal:
Perguntar ao paciente sobre orientação no tempo
– Qual o dia da semana?
– Qual a data do mês?
– Em que mês estamos?
– Em que ano estamos?
– Que horas são agora? (tolerância de 60 minutos para mais ou para menos)
Observação: um ponto para cada resposta correta
Pontuação:
2 – Orientação espacial:
Perguntar ao paciente sobre orientação no espaço
– Que local é este? (espera-se como resposta consultório, no quarto ou algo similar)
– Onde fica o local em que estamos? (no hospital, na clínica, em casa etc)
– Qual o bairro ou nome de rua próxima?
– Qual a cidade?
– Qual o estado?
Observação: um ponto para cada resposta correta
Pontuação:
3 – Memória Imediata (ou registro):
Relatar o seguinte comando ao paciente: “Vou dizer três palavras e gostaria que você as decorasse pois vou perguntá-las novamente depois”
– As três palavras não devem ter uma relação óbvia entre si e devem ser ditas de forma lenta e clara. Sugestão: carro – vaso – tijolo
Observação: um ponto para cada resposta correta
Pontuação:
4 – Atenção e cálculo:
Pedir para o paciente realizar subtrações seriadas de sete dígitos a partir de 100.
– O paciente deve realizar um total de cinco subtrações: 93 – 86 – 79 – 72 – 65
– Caso o paciente cometa erros pode-se corrigir, evitando questionamentos, e prosseguir com o restante da avaliação.
– Se o examinado se autocorrigir deve-se considerar como acerto.
Observação: um ponto para cada resposta correta
Alternativa: soletrar a palavra mundo de trás para frente (O – D – N – U – M)
Pontuação:
5 – Memória de evocação (recall):
Pedir para o paciente repetir as palavras ditas anteriormente.
– Não se deve dar pistas para a evocação (como categorias de palavras ou mesmo a quantidade)
Observação: um ponto para cada resposta correta
Pontuação:
6 – Nomeação:
Mostrar dois objetos corriqueiros e pedir para o paciente nomeá-los.
– Exemplo: caneta e relógio
Observação: um ponto para cada objeto nomeado corretamente
Pontuação:
7 – Repetição:
Repetir a frase “Nem aqui, nem ali, nem lá”.
Observação: um ponto para a repetição correta
Deve ser considerada apenas a primeira tentativa do paciente (podendo-se repetir a frase, caso o mesmo não tenha entendido)
Pontuação:
8 – Comando verbal:
Oferecer uma folha de papel ao paciente. Deve-se entregá-la com as duas mãos e centralizada em relação ao tronco do paciente
– Realizar três comandos e peça para o paciente realizar de forma sequencial:
– “Pegue a folha com a mão direita, dobre-a ao meio e coloque no chão”
– Não se deve dar dicas durante a execução
Observação: um ponto para cada comando corretamente executado
Pontuação:
9 – Comando escrito:
Mostrar uma folha de papel onde esteja escrito, de forma clara e de fácil leitura, o seguinte comando:
“FECHE OS OLHOS”
– Pedir para o paciente ler e seguir o que está escrito.
– Não se deve dar dicas para a execução.
Observação: um ponto se ato realizado de forma correta
Pontuação:
10 – Escrever uma frase:
Oferecer papel e caneta (ou lápis) e pedir para o paciente escrever uma frase com início, meio e fim.
– A frase deve ter sentido e obrigatoriamente conter um verbo, não sendo válido a escrita apenas do nome do paciente.
– A frase não pode ser ditada pelo examinador ou outra pessoa.
– Não devem ser considerados erros gramaticais ou ortográficos.
Observação: um ponto se frase com presença de verbo e com sentido
Pontuação:
11 – Copiar o desenho:
Pedir para o paciente copiar um desenho com dois pentágonos.
– Os pentágonos devem apresentar dois pontos de intersecção, formando um quadrilátero.
– Seguir um dos exemplos abaixo
– Tremor e rotação do papel devem ser ignorados
Observação: um ponto se cópia do desenho realizada corretamente
Pontuação:
Exemplos de pentágonos para cópia de desenho


Interpretação*:
O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) é um instrumento de rastreio e para avaliação cognitiva global. Para o estudo de alterações em domínios cognitivos específicos, devem ser utilizados instrumentos dedicados a esse propósito. A consideração do grau de escolaridade é crucial na interpretação do MEEM, pois pessoas com maior escolaridade podem apresentar mais recursos para mascarar a apresentação clínica de demência. Para o diagnóstico de demência, é essencial levar em conta o impacto na funcionalidade do indivíduo e os achados em exames complementares.
Existem diferentes versões do MEEM, e vários pontos de corte foram propostos, dependendo da população estudada. Os autores originais sugeriram um ponto de corte de valores menores que 24 pontos como rastreio positivo, sem considerar a escolaridade ou a idade do indivíduo avaliado.
A seguir, são apresentadas diferentes propostas de ponto de corte realizadas por autores brasileiros, indicando o local do estudo e o ano de sua realização entre parênteses.
Bertolucci (São Paulo/SP - 1994)
Analfabetos: 13 pontos
Escolaridades baixa (01 a 04 anos) e média (04 a 08 anos): 18 pontos
Alta escolaridade (>08 anos): 26 pontos
Almeida (São Paulo/SP - 1998)
Sem escolaridade: 20 pontos
Escolaridade prévia: 24 pontos
Caramelli (2000)
Analfabetos: 18 pontos
Um a três anos: 21 pontos
Quatro e sete anos: 24 pontos
Sete ou mais anos: 26 pontos
Brucki et al. (São Paulo/SP e Catanduva/SP - 2003)
Analfabetos: 20 pontos
Um a quatro anos: 25 pontos
Cinco a oito anos: 26,5 pontos
Nove a onze anos: 28 pontos
Acima de onze anos: 29 pontos
Lourenço (Rio de Janeiro/RJ-2006)
Analfabetos: 19 pontos
Instrução escolar: 25 pontos
Kochhann (Porto Alegre/RS - 2010)
Analfabetos: 21 pontos
Baixa escolaridade (01 a 05 anos): 22 pontos
Média escolaridade (06 a 11 anos): 23 pontos
Alta escolaridade (>12 anos): 24 pontos
Aprahamian (Jundiaí /SP - 2011)
Analfabetos: 18 pontos
O consenso de 2022 da Academia Brasileira de Neurologia sobre o diagnóstico da doença de Alzheimer destaca o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) como um teste de escore cognitivo global. No entanto, não menciona pontos de corte específicos.
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Referências:
Almeida OP. Mini Exame do Estado Mental e o diagnóstico de demência no Brasil. Arq Neuropsiquiatr 1998; 56 (3-B): 605-612. https://doi.org/10.1590/S0004-282X1998000400014
Aprahamian I, Martinelli JE, Cecato J, Yassuda MS. Screening for Alzheimer's disease among illiterate elderly: accuracy analysis for multiple instruments. J Alzheimers Dis 2011; 26(2):221-9. https://doi.org/10.3233/jad-2011-110125
Bertolucci PHF, Brucki SMD, Campacci SR, Juliano Y. O Mini-exame do estado mental em uma população geral - Impacto da escolaridade. Arq Neuropsiquiatr 1994; 52(1): 1-7. https://doi.org/10.1590/S0004-282X1994000100001
Brucki SMD, Nitrini R, Caramelli P, Bertolucci PHF, Okamoto IH. Sugestões para o uso do Mini-Exame do Estado Mental no Brasil. Arq Neuropsiquiatr 2003; 61 (3-B):777-81. https://doi.org/10.1590/S0004-282X2003000500014
Caramelli P, Nitrini R. Como avaliar de forma breve e objetiva o estado mental de um paciente? Rev Ass Med Brasil 2000; 46(4): 289-311. https://doi.org/10.1590/S0104-42302000000400018
Folstein MF, Folstein SE, McHugh PR. “Mini-mental state”. A practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. J Psychiatr Res 1975; 12 (3): 189-198. https://doi.org/10.1016/0022-3956(75)90026-6
Kochhann R, Varela JS, Lisboa CSM, Chaves MLF. The Mini Mental State Examination: Review of cutoff points adjusted for schooling in a large Southern Brazilian sample. Dement Neuropsychol 2010; 4(1):35-41. https://doi.org/10.1590/S1980-57642010DN40100006
Lourenço RA, Veras RP. Mini-Exame do Estado Mental: características psicométricas em idosos ambulatoriais. Rev Saúde Pública 2006; 40(4): 712-719. https://doi.org/10.1590/S0034-89102006000500023
Melo DM, Barbosa AJG. O uso do Mini-Exame do Estado Mental em pesquisas com idosos no Brasil: uma revisão sistemática. Ciência e Saúde Coletiva 2015; 20(12): 3865 - 3876. https://doi.org/10.1590/1413-812320152012.06032015
Schilling LP, Balthazar MLF, Radanovic M, Forlenza OV, Silagi ML, Smid J, et al. Diagnóstico da doença de Alzheimer: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Dement Neuropsychol 2022; 16 (3 suppl. 1): 25-39. https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2022-S102PT