Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 26/07/2024
Atualização: 25/03/2026
O teste de fluência verbal é um instrumento amplamente utilizado na avaliação cognitiva para investigar diferentes domínios, como linguagem, atenção, funções executivas e memória semântica. Assim, é especialmente útil na avaliação de pessoas idosas e em exames neuropsicológicos, auxiliando no rastreio e acompanhamento de alterações cognitivas.
Dessa forma, o teste consiste em solicitar que o paciente diga espontaneamente o maior número possível de palavras que atendam a um critério específico durante um período de um minuto.
O teste de fluência verbal pode ser aplicado de forma isolada ou integrar baterias de avaliação neuropsicológica, como a Boston Diagnostic Aphasia Examination e o Consortium to Establish a Registry for Alzheimer’s Disease (CERAD).
Tipos de teste de fluência verbal
Existem duas modalidades principais de fluência verbal: semântica e fonêmica.
Na FV semântica, o paciente deve dizer palavras que pertencem a uma categoria específica. O exemplo mais utilizado é a categoria “animais”, mas outras categorias também podem ser usadas, como:
– Frutas
– Nomes próprios
– Itens de supermercado
Essa modalidade avalia principalmente o acesso à memória semântica, além de habilidades de linguagem e organização do conhecimento.
Na FV fonética (também chamada de fonêmica ou ortográfica). , o paciente deve dizer palavras que começam com uma letra específica, como: F, A, S ou M.
Durante a aplicação, o examinador deve registrar as palavras, desconsiderando repetições ou variações da mesma palavra (gênero, número, conjugação verbal). Assim, por exigir estratégias de busca lexical menos automatizadas, essa modalidade depende mais das funções executivas, do controle inibitório e da flexibilidade cognitiva.
Como registrar as respostas
A fluência verbal semântica, especialmente utilizando a categoria animais, apresenta importantes vantagens na prática clínica. Em comparação com a modalidade fonêmica, costuma sofrer menor influência da escolaridade, pois utiliza categorias familiares e presentes no cotidiano.
Por outro lado, a fluência verbal fonêmica exige maior esforço cognitivo, uma vez que depende da elaboração de estratégias de busca lexical e de um vocabulário mais amplo.
Além da escolaridade, fatores como idade e gênero também podem influenciar o desempenho no teste. Estudos sugerem que esses fatores podem exercer impacto igual ou superior ao nível educacional, devendo ser considerados durante a interpretação dos resultados.
Orientação para o Teste de Fluência Verbal (semântica):
A aplicação do teste de fluência verbal semântica deve seguir um padrão para garantir confiabilidade nos resultados:
– O paciente deve estar confortável e em ambiente tranquilo
– Explique que ele deve dizer o maior número possível de nomes de animais
– Informe que qualquer tipo de animal é válido
Importante:
– Animais em extinção são permitidos
– Animais imaginários ou mágicos (como dragão ou unicórnio) são aceitos
– Nomes próprios de animais não devem ser considerados
Logo, quanto maior o número de palavras evocadas no tempo determinado, melhor o desempenho cognitivo do paciente.
Criamos um cronômetro regressivo para facilitar a aplicação do teste de fluência verbal na prática clínica.
Interpretação*:
Existem diversos trabalhos na literatura sobre a utilização do teste de fluência verbal na literatura em população brasileira. Os pontos de corte mais utilizados são os propostos por Brucki et al. (1997). Além disso, a categoria mais utilizada é a de animais.
Nitrini et al. (São Paulo - 1994):
Escolaridade 04 a 16 anos: 13 animais (S 96,66%; E 93,33%).
Brucki et al. (São Paulo - 1997):
Analfabetos 09 animais (S 75%; E 79%);
Baixa (um a quatro anos incompletos) 09 animais (S 100%, E 84%);
Média escolaridade (04 a 08 anos incompletos) 09 animais (S 87%; E 88%);
Alta escolaridade (oito ou mais anos) 13 animais (S 86%; E 67%).
Caramelli et al. (São Paulo - 2007):
Analfabetos: 09 animais (S 90,5%; E 80,6%);
01 a 03 anos de escolaridade: 12 animais (S 95,2%; 80,0%);
04 a 07 anos: 12 animais (S 91,3%; E 91,9%);
08 anos ou mais: 13 animais (S 82,6%; E 100%).
Nitrini et al. (São Paulo - 2007):
Alta escolaridade (média acima de 10 anos): 15 animais (S 83,6% E 67%).
Radanovic et al. (São Paulo - 2007):
Envelhecimento normal X CCL (CDR 0,5):
- 11 animais (S 76,5% E 72,7%);
- 08 frutas (S 68,7% E 81,8%).
Envelhecimento normal X demência (CDR 1):
- 10 animais (S 95,8% E 72,7%);
- 08 frutas (S 87,5% E 81,8%).
CCL (CDR 0,5) X demência (CDR 1):
- 06 animais (S 45,8% E 100%);
- 05 frutas (S 37,5% E 93,7%).
Radanovic et al. (São Paulo - 2009):
Envelhecimento normal X CCL
- Amostra geral: 16 animais (S 59% E 64%); 13 frutas (S 66% E 74%);
- 04 a 08 anos de escolaridade: 13 animais (S 60% E 79%); 13 frutas (S 70% E 68%);
- > 08 anos de escolaridade: 18 animais (S 60% E 60%); 13 frutas (S 62% E 78%).
Envelhecimento normal X demência
- Amostra geral: 13 animais (S 72% E 92%); 12 frutas (S 87% E 84%);
- 04 a 08 anos de escolaridade: 12 animais (S 64% E 95%); 12 frutas (S 80% E 84%);
- > 08 anos de escolaridade: 14 animais (S 77% E 93%); 11 frutas (S 94% E 84%).
CCL X demência
- Amostra geral: 12 animais (S 66% E 75%); 10 frutas (S 72% E 69%);
- 04 a 08 anos de escolaridade: 12 animais (S 64% E 60%); 10 frutas (S 60% E 67%);
- > 08 anos de escolaridade: 11 animais (S 63% E 93%); 10 frutas (S 82% E 72%).
Aprahamian et al. (Jundiaí - 2011):
Analfabetos: 08 animais (S 85%; E 60,6%).
Jacinto et al (São Paulo, 2012):
Envelhecimento normal X CCL: 11 animais (S 56,4% E 77,3%);
Envelhecimento normal X CCL + demência: 10 animais (S71,3% E 69,8%);
Envelhecimento normal X Demência: 09 animais (S 88,61% E 76,19%);
Envelhecimento normal + CCL X Demência: 09 animais (S 88,8% E 76,2%);
CCL X Demência: 09 animais (S 90,91% E 76,19%).
de Paula et al. (Belo Horizonte - 2013):
Envelhecimento normal X CCL: 13 animais (S 76% E 67%); 12 frutas (S 68% E 79%);
Envelhecimento normal X Alzheimer: 12 animais (S 81% E 86%); 11 frutas (S 74% E 83%);
CCL X Alzheimer: 10 animais (S 70% E 35%); 09 frutas (S 57% E 39%).
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Logo, devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Perguntas frequentes:
O que é o teste de fluência verbal?
O teste de fluência verbal é um instrumento de avaliação cognitiva que mede a capacidade de produzir palavras de forma espontânea dentro de um tempo determinado. Assim, avalia diferentes domínios cognitivos, incluindo linguagem, memória semântica, atenção e funções executivas.
Qual é a diferença entre fluência verbal semântica e fonêmica?
Na fluência verbal semântica, o paciente deve dizer palavras pertencentes a uma categoria específica, como animais ou frutas. Já na fluência verbal fonêmica, o paciente deve produzir palavras iniciadas por uma letra determinada, como F, A, S ou M. A modalidade fonêmica exige maior planejamento e controle executivo.
Quais funções cognitivas o teste de fluência verbal avalia?
O teste avalia principalmente linguagem, memória semântica, acesso lexical, atenção, velocidade de processamento e funções executivas, como planejamento, flexibilidade cognitiva e controle inibitório.
A escolaridade interfere no desempenho do teste?
Sim. A escolaridade influencia principalmente a fluência verbal fonêmica. Na modalidade semântica, especialmente na categoria "animais", essa influência costuma ser menor. Além da escolaridade, idade e sexo também podem afetar o desempenho.
O teste de fluência verbal é suficiente para diagnosticar demência?
Não. O teste de fluência verbal é uma ferramenta de rastreio cognitivo e deve ser interpretado em conjunto com a avaliação clínica, outros testes cognitivos e, quando necessário, exames complementares.
Sugestões de leitura:
Aprahamian I, Martinelli JE, Cecato J, Yassuda MS. Screening for Alzheimer's disease among illiterate elderly: accuracy analysis for multiple instruments. J Alzheimers Dis 2011; 26(2):221-9. https://doi.org/10.3233/jad-2011-110125
Brucki SMD, Malheiros SMF, Okamoto IH, Bertolucci PHF. Dados normativos para o teste de fluência verbal categoria animais em nosso meio. Arq Neuropsiquiatr 1997; 55(1):56-61. https://doi.org/10.1590/S0004-282X1997000100009
Brucki SMD, Rocha MSG. Category fluency test: effect of age, gender and education on total scores, clustering and switching in Brazilian Portuguese-speaking subjects. Braz J Med Biol Res 2004; 37(12):1771-1777. https://doi.org/10.1590/S0100-879X2004001200002
Caramelli P, Carthery-Goulart MT, Porto CS, Charchat-Fichman H, Nitrini R. Category Fluency as a Screening Test for Alzheimer Disease in Illiterate and Literate Patients. Alzheimer Dis Assoc Disord 2007; 21(1):65-7. https://doi.org/10.1097/wad.0b013e31802f244f
de Paula JJ, Bertola L, Ávila RT, Moreira L, Coutinho G, de Moraes EN et al. Clinical Applicability and Cutoff Values for an Unstructured Neuropsychological Assessment Protocol for Older Adults with Low Formal Education. PLoS One 2013; 8(9): e73167. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0073167
Jacinto AF, Brucki SMD, Porto CS, Martins MA, Nitrini R. Screening of cognitive impairment by general internists using two simple instruments. Dement Neuropsychol 2012; 6(1): 42-47. https://doi.org/10.1590/S1980-57642012DN06010007
Nitrini R, Lefèvre BH, Mathias SC, Caramelli P, Carrilho PEM, Sauaia N et al. Testes neuropsicológicos de aplicação simples para o diagnóstico de demência. Arq Neuropsiquiatr 1994; 52(4): 457-465. https://doi.org/10.1590/S0004-282X1994000400001
Nitrini R, Caramelli P, Porto CS, Charchat-Fichiman H, Formigoni AP, Carthery-Goulart MT et al. Brief cognitive battery in the diagnosis of mild Alzheimer's disease in subjects with medium and high level of education. Dement Neuropsychol 2007; 1(1):32-36. https://doi.org/10.1590/S1980-57642008DN10100006
Radanovic M, Carthery-Goulart MT, Charchat-Fichman H, Herrera Jr E, Lima EEP, Smid J et al. Analysis of brief language tests in the detection of cognitive decline and dementia. Dement Neuropsychol 2007; 1(1):37-45. https://doi.org/10.1590/S1980-57642008DN10100007
Radanovic M, Diniz BS, Mirandez RM, Novaretti TMS, Flacks MK, Yassuda MS et al. Verbal fluency in the detection of mild cognitive impairment and Alzheimer's disease among Brazilian Portuguese speakers: the influence of education. Int Psychogeriatr 2009; 21(6): 1081-7. https://doi.org/10.1017/s1041610209990639

