Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 19/04/2024
Atualização: 15/04/2026
O teste de retropulsão na doença de Parkinson, também conhecido como Pull Test, é um exame clínico utilizado para avaliar a instabilidade postural e a capacidade de recuperação do equilíbrio após uma perturbação súbita. É um teste simples, rápido, de baixo custo e amplamente empregado durante o exame neurológico de pacientes com distúrbios do movimento com características parkisonianas.
Historicamente, a instabilidade postural foi descrita por James Parkinson ao caracterizar a doença que posteriormente recebeu seu nome. Mais tarde, Moritz Heinrich Romberg, Armand Trousseau e Jean-Martin Charcot contribuíram para o entendimento desse comprometimento, sendo Charcot responsável por descrever a manobra de tracionar o paciente para trás como parte da avaliação clínica.
Qual o objetivo do teste de retropulsão?
O principal objetivo do Pull Test é avaliar os reflexos posturais e a capacidade do paciente de recuperar o equilíbrio após uma tração rápida para trás. A presença de uma resposta inadequada pode indicar comprometimento dos mecanismos de controle postural, condição frequentemente observada nos estágios mais avançados da doença de Parkinson.
Além da avaliação clínica, o teste integra importantes instrumentos de acompanhamento da doença, como a Escala de Hoehn e Yahr (versão modificada) e a Unified Parkinson’s Disease Rating Scale (UPDRS/MDS-UPDRS).
Como interpretar os resultados?
A proposta da manobra é provocar uma rápida perturbação do equilíbrio na direção das costas. Os indivíduos saudáveis recuperam o equilíbrio com até dois passos largos. Contudo, aqueles com doença de Parkinson podem necessitar de três passos ou mais, sendo geralmente curtos e com movimentação do tronco em bloco.
Apesar do ponto de corte pela quantidade de passos, há o componente de avaliação subjetiva (paciente que se recupera com dois passos, mas com sinais claros de comprometimento importante e presença de instabilidade postural). Como variação pode-se realizar o pull test de forma inesperada pelo paciente. Apresenta maior sensibilidade do que o protocolo usual. No entanto, pode haver maior risco de quedas na execução da manobra.
Aplicações clínicas
O teste de retropulsão auxilia na avaliação da progressão da doença de Parkinson e pode contribuir para:
– Identificar instabilidade postural
– Estimar o risco de quedas
– Monitorar a evolução clínica
– Avaliar a resposta ao tratamento dopaminérgico
– Indicar a necessidade de fisioterapia voltada ao equilíbrio e à marcha.
Embora seja amplamente utilizado na doença de Parkinson, o teste também pode auxiliar na avaliação do equilíbrio em outras condições neurológicas, como: doença de Huntington, doença de Alzheimer, paralisia supranuclear progressiva e outros quadros de perda cognitiva.
Limitações
Apesar de sua ampla utilização, o teste apresenta limitações importantes.
O desempenho no Pull Test, isoladamente, não prediz a frequência nem a gravidade das quedas, uma vez que o risco depende de diversos fatores, incluindo:
– Freezing da marcha
– Alterações da marcha
– Déficits sensoriais
– Comprometimento cognitivo
– Fraqueza muscular
– Alterações visuais
– Uso de medicamentos
Além disso, a reprodutibilidade pode ser influenciada pela intensidade da tração aplicada, pela técnica do examinador, pelas características antropométricas do paciente e do examinador e pela interpretação subjetiva dos achados. Por esse motivo, a interpretação do teste é em conjunto com a avaliação clínica global e outras escalas de equilíbrio e mobilidade.
Manobra do Pull Test
Orientações ao paciente
Antes da realização do teste, o paciente deve ser orientado de forma clara:
– Informar que será levemente puxado para trás pelos ombros
– Explicar que pode ocorrer instabilidade ou perda de equilíbrio
– Reforçar que o paciente deve se reequilibrar dando passos para trás
– Orientar para não inclinar o corpo para frente durante a manobra (compensando a puxada)
– Manter postura ereta, confortável e com os olhos abertos
– Posicionar os pés paralelos, voltados para frente e na largura dos ombros
Procedimentos do examinador
A execução correta do teste exige atenção à segurança e padronização:
– Posicionar-se atrás do paciente
– Garantir que há uma parede rígida atrás do examinador, especialmente em casos de diferença de altura ou peso
– Confirmar que o paciente está relaxado e não está projetando o corpo para frente
– Manter distância suficiente para permitir passos de recuperação (aproximadamente 1 a 2 metros)
– Estar preparado para amparar o paciente em caso de queda, preferencialmente na região axilar
– Considerar o risco de queda tanto para trás quanto para frente
– Se possível, contar com um auxiliar ou familiar à frente do paciente para segurança adicional
Execução da manobra:
– Realizar uma primeira puxada leve como demonstração
– Em seguida, aplicar uma segunda puxada mais rápida e vigorosa
– A força deve ser suficiente para deslocar o centro de gravidade do paciente
– Observar e registrar o número de passos necessários para recuperação do equilíbrio
– Repetir o teste quando houver dúvida na resposta ou dificuldade de compreensão do paciente
Interpretação*:
O MDS-UPDRS (Movement Disorder Society-Sponsored Revision of the United Parkinson’s Disease Rating Scale) é um documento reunindo as avaliações específicas de diferentes aspectos da doença de Parkinson. Dentre elas há a avaliação da estabilidade postural que é a que se segue.
0 – Normal: Sem problemas. Recupera com um ou dois passos.
1 – Discreto: 3 a 5 passos, mas o paciente recupera sem ajuda.
2 – Ligeiro: Mais de 5 passos, mas o paciente recupera sem ajuda.
3– Moderado: Mantém-se de pé em segurança, mas com ausência de resposta postural; cai se não for aparado pelo avaliador.
4 – Grave: Muito instável, tende a perder o equilíbrio espontaneamente ou com um ligeiro puxão nos ombros.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Perguntas frequentes:
O teste de retropulsão serve para diagnosticar doença de Parkinson?
Não. O teste avalia principalmente a instabilidade postural e faz parte do exame neurológico, mas não estabelece o diagnóstico isoladamente.
Um teste alterado significa alto risco de quedas?
Não necessariamente. Embora um resultado alterado esteja associado a maior instabilidade postural, o risco de quedas depende de múltiplos fatores clínicos e funcionais.
O Pull Test deve ser utilizado isoladamente?
Não. A interpretação deve ser integrada ao exame neurológico, às escalas de avaliação motora e à análise funcional do paciente.
Sugestões de leitura:
Goetz CG, Tilley BC, Shaftman SR et al. Movement Disorder Society- sponsored revision of the Unified Parkinson’s Disease Rating Scale (MDS-UPDRS): scale presentation and clinimetric testing results. Mov Disord 2008; 23(15):2129-70. https://doi.org/10.1002/mds.22340
Hunt AL, Sethi KD. The pull test: a history. Mov Disord 2006; 21(7):894-9. https://doi.org/10.1002/mds.20925
Munhoz RP, Li J-Y, Kurtinecz M et al. Evaluation of the pull test technique in assessing postural instability in Parkinson’s disease. Neurology 2004; 62(1):125-7. https://doi.org/10.1212/wnl.62.1.125
Munhoz RP, Teive HA. Pull test performance and correlation with falls risk in Parkinson’s disease. Arq Neuropsiquiatr 2014; 72(8):587-91. https://doi.org/10.1590/0004-282×20140082
Nonnekes J, Goselink R, Weerdesteyn V et al. The retropulsion test: a good evaluation of postural instability in Parkinson’s disease? J Parkinsons Dis 2015; 5(1):43-7. https://doi.org/10.3233/jpd-140514

