Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 14/05/2024
Atualização: 27/03/2026
O Teste do Desenho do Relógio (TDR) é um instrumento de rastreio cognitivo amplamente utilizado na avaliação da pessoa idosa. Seu principal objetivo é avaliar funções executivas, habilidades visuoespaciais e capacidade de planejamento, domínios frequentemente comprometidos nas síndromes demenciais.
Embora tenha sido inicialmente utilizado na avaliação de soldados sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, o TDR passou a ser amplamente empregado para o rastreio de demências a partir da década de 1980. Atualmente, integra a prática clínica da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) por ser um teste simples, rápido e de fácil aplicação.
Por ser um instrumento complementar, o TDR não deve ser utilizado isoladamente para estabelecer o diagnóstico de comprometimento cognitivo ou demência. Assim, a interpretação dos resultados é feita em conjunto com a história clínica, o exame físico e outros testes cognitivos.
O que o Teste do Desenho do Relógio avalia?
O TDR explora principalmente funções cognitivas relacionadas ao planejamento e à organização de uma tarefa complexa. Entre os principais domínios avaliados estão:
– Habilidades visuoespaciais
– Funções executivas
– Planejamento e organização
– Praxia construtiva
– Compreensão de comandos verbais
– Memória operacional (curto prazo)
– Capacidade de representação abstrata do tempo.
Esses domínios são menos explorados pelo Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), que concentra sua avaliação principalmente em memória, linguagem e orientação temporal e espacial. Dessa forma, os dois instrumentos fornecem informações complementares e utilizados em conjunto na investigação do declínio cognitivo.
O TDR é um instrumento de rápida aplicação, cerca de três minutos e não sofre influência de cultura ou linguagem. Contudo, o MEEM demanda cerca dez minutos para aplicação e há necessidade de adaptação transcultural. Além disso, o MEEM sofre maior influência da escolaridade.
Logo, por avaliar domínios cognitivos diferentes, o TDR complementa o MEEM e aumenta a sensibilidade da avaliação cognitiva realizada durante a Avaliação Geriátrica Ampla.
Vantagens do Teste do Desenho do Relógio
Entre suas principais vantagens destacam-se:
– Fácil execução
– Boa confiabilidade intra e interexaminadores
– Boa reprodutibilidade (teste-reteste)
– Baixo custo;
– Menor influência de fatores culturais e linguísticos quando comparado a outros instrumentos.
Assim, essas características tornam o TDR uma ferramenta útil tanto na atenção primária, quanto em ambulatórios especializados.
Limitações do TDR
Apesar de suas vantagens, o Teste do Desenho do Relógio apresenta limitações:
– Melhor desempenho em indivíduos com maior escolaridade
– Menor precisão, quando aplicado isoladamente
– Necessidade de associação com outros instrumentos
– Incapacidade de definir, sozinho, a etiologia do comprometimento cognitivo
Assim, o resultado do TDR deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico do paciente.
Como se aplica o Teste do Desenho do Relógio?
Durante a aplicação, o examinador solicita que o paciente desenhe um relógio analógico e represente um horário específico. Além disso, dependendo do protocolo utilizado, também pode se solicitar que o próprio paciente desenhe o círculo do relógio.
Ao longo da tarefa, são observados diversos aspectos da execução, incluindo:
– Planejamento da atividade
– Organização espacial dos números
– Posicionamento correto dos ponteiros
– Compreensão das instruções
– Memória operacional
– Representação abstrata do conceito de tempo
Assim, a análise desses elementos permite identificar alterações em diferentes funções cognitivas e fornece informações importantes para o rastreio de comprometimento cognitivo leve e demências.
Como interpretar o Teste do Desenho do Relógio?
Existem diversos sistemas de pontuação desde a criação do TDR. De forma geral, eles são classificados de três formas de avaliação: quantitativa, semiquantitativa, qualitativa.
As abordagens quantitativa e semi-quantitativa têm como vantagem a avaliação rápida e critérios mais objetivos. Mas como desvantagens há a incapacidade de medir erros específicos, não conseguir propor diagnósticos diferenciais para quadros demenciais e servirem principalmente para rastreio de quadro moderados a graves.
Já as formas de avaliação qualitativas apresentam uma abordagem de cunho neuropsicológico e avaliam as funções executivas que estão envolvidas na realização da tarefa, podendo servir inclusive para diagnósticos diferenciais de quadros demenciais e diagnóstico de quadros leves. Mas apresenta a desvantagem de maior demanda de tempo para avaliação e pode utilizar critérios subjetivos. Além disso, tal abordagem deve ser realizada por profissionais com treinamento específico para tal.
Por fim, diversos critérios já foram validados para a interpretação. Sugere-se a adoção daquela que o examinador tenha mais prática e afinidade. Nesta página iremos abordar a abordagem proposta por Sunderland et al. (1989).
A versão proposta por Sunderland et al. (1989) traz uma abordagem semi-quantitativa.
Os autores propuseram que ao paciente deveria ser entregue uma folha de papel em branco e lápis ou caneta. Em seguida deve-se dar instruções em duas etapas:
1 – Desenhe um relógio e inclua todos os seus números;
2 – Posicione os ponteiros do relógio marcando 2:45.
Dessa forma, as instruções podem ser repetidas quantas vezes for necessário, sem outras instruções. O examinador não deve se preocupar em esconder ou encobrir relógios presentes na sala de avaliação.
Interpretação*:
Sunderland et al. propuseram uma análise com alto grau de detalhamento. Baseando-se na frequência de erros cometidos durante a realização da avaliação.
A pontuação varia entre um (pior pontuação) e dez pontos (melhor pontuação). Nas pontuações entre seis e dez pontos o desenho do círculo e a distribuição dos números estaria intacta (erros no comando dois). Já nas pontuações entre um e cinco pontos haveria erros no desenho do círculo e na distribuição dos números (erros no comando um).
Sunderland et al. (1989)
Sem erros no desenho do círculo e posição dos números:
10 pontos: Ponteiros na posição correta (ponteiro das horas próximo ao número três);
9 pontos: Erro discreto no posicionamento dos ponteiros;
8 pontos: Erro notável no posicionamento dos ponteiros de horas ou minutos;
7 pontos: Ponteiros fora da posição solicitada;
6 pontos: Uso inapropriado dos ponteiros ou forma alternativa para indicar horário (como display de relógios digitais).
Verificados erros no desenho do círculo e/ou distribuição dos números:
5 pontos: Acúmulo de números no primeiro ou último quadrante; ou ordem anti-horária no posicionamento dos números dentro do relógio. Ponteiros podem estar presentes de alguma forma;
4 pontos: Distorção na sequência numérica do relógio. A integridade do relógio está perdida (números fora do relógio, ausência de números);
3 pontos: Ausência de ponteiros. A relação entre números e círculo do relógio ocorre de forma desordenada;
2 pontos: Vaga impressão de um desenho de relógio;
1 ponto: Ausência do desenho ou esboço de uma imagem gráfica.
Nitrini (São Paulo – 1994)
Escolaridade 04 – 16 anos: <05 pontos (S 90%; E 83,33%)
Nitrini et al (São Paulo – 2007)
Idosos com elevada escolaridade (média acima de 10 anos): <09 pontos (S 77,8%; E 72,3%)
Os autores propuseram um ponto de corte arbitrário no valor de seis pontos como rastreio positivo. Por outro lado, Aprahamian, ao estudar pacientes brasileiros no rastreamento para a Doença de Alzheimer, sugere um ponto de corte no valor de 9,5.
Abaixo temos alguns exemplos de TDR:




* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Logo, interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Perguntas frequentes:
O Teste do Desenho do Relógio pode diagnosticar demência?
Não. O TDR é um instrumento de rastreio cognitivo. Seus resultados devem ser interpretados em conjunto com a avaliação clínica e outros testes cognitivos.
O TDR substitui o Mini-Exame do Estado Mental?
Não. Os dois instrumentos avaliam domínios cognitivos diferentes e são complementares. A utilização conjunta aumenta a sensibilidade da avaliação cognitiva.
Quanto tempo leva para aplicar o TDR?
A aplicação costuma durar aproximadamente três minutos, tornando o teste uma das ferramentas mais rápidas para triagem cognitiva.
Em quais situações o TDR é indicado?
O Teste do Desenho do Relógio é indicado durante a investigação de declínio cognitivo, comprometimento cognitivo leve e demências, sendo frequentemente utilizado como parte da Avaliação Geriátrica Ampla.
Sugestões de leitura:
Aprahamian I.O teste do desenho do relógio no rastreio diagnóstico da doença de Alzheimer em idosos no Brasil.[dissertação]. Campinas, SP: Universidade Estadual de Campinas; 2008, 151 p. https://doi.org/10.47749/T/UNICAMP.2008.433981.
Campos BSO. Classificação das estratégias de construção do teste do desenho do relógio [dissertação]. Rio de Janeiro, RJ: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; 2017, 103 p. http://doi.org/10.17771/PUCRio.acad.51890
Mendez MF, Ala T, Underwood K. Development of scoring citeria for the clock drawing task in Alzheimer’s disease. J Am Geriatr Soc. 1992;40:1095-99. https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.1992.tb01796.x
Nitrini R, Caramelli P, Porto CS, Charchat-Fichiman H, Formigoni AP, Carthery-Goulart MT et al. Brief cognitive battery in the diagnosis of mild Alzheimer’s disease in subjects with medium and high level of education. Dement Neuropsychol 2007; 1(1):32-36. https://doi.org/10.1590/S1980-57642008DN10100006
Shulman KI, Shedletsky R, Silver IL. The challenge of time: click-drawing and cognitive function in the elderly. Int J Geriatr Psychiatry. 1986;1:135-40. https://doi.org/10.1002/gps.930010209
Spenciere B, Alves H, Charchat-F. Scoring systems for the clock drawing test. A historical review. Dement Neuropsychol 2017; 11(1):6-14. https://doi.org/10.1590/1980-57642016dn11-010003
Sunderland T, Hill JL, Mellow AM, Lawlor BA, Gundersheimer J, Newhouse PA, Grafman JH. Clock drawing in Alzheime´s disease. A novel measure of dementia severity. J Am Geriatr Soc 1989; 37(8): 725-9. https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.1989.tb02233.x

