Clinical Dementia Rating (CDR)
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 16/01/24
Atualização: 13/03/26
O Clinical Dementia Rating (CDR) é um instrumento de avaliação global para pacientes com perda cognitiva, amplamente utilizado por profissionais da saúde para diagnóstico e estratificação de idosos. Desenvolvido na Escola de Medicina da Universidade de Washington, em estudo publicado por Hughes et al. (1982). Posteriormente, o CDR passou por revisões garantindo confiabilidade e aplicabilidade em diferentes contextos clínicos.
O CDR foi inicialmente criado para pacientes com doença de Alzheimer, mas atualmente é utilizado para avaliar síndromes demenciais de diferentes etiologias. Ele permite analisar não apenas a cognição, mas também o comportamento do paciente e como a perda cognitiva afeta a funcionalidade. O CDR é essencial para monitorar a progressão da doença de Alzheimer, permitindo estratificação adequada e suporte clínico direcionado. Além disso, o CDR pode ser aplicado em pacientes com demências vasculares, frontotemporais e outras condições neurodegenerativas, auxiliando na tomada de decisão clínica.
A aplicação do CDR envolve uma entrevista semi-estruturada, que coleta informações diretamente do paciente ou de familiares e cuidadores. O instrumento analisa seis domínios:
– Memória
– Orientação
– Julgamento e solução de problemas
– Atividades na comunidade
– Lar e passatempos
– Cuidados pessoais
Cada domínio é classificado em cinco estratos: 0 (nenhum), 0.5 (questionável), 1 (leve), 2 (moderado) ou 3 (grave). Contudo, domínio de cuidados pessoais não possui a classificação de 0.5. O CDR avalia principalmente o impacto da perda cognitiva. Não há notas de corte baseadas no desempenho populacional, pois cada paciente é comparado ao seu próprio desempenho prévio.
No caso de pacientes com doença de Alzheimer, há uma tendência de concordância nas pontuações (por exemplo, muitos domínios marcados com 1,0). Entretanto, se houver uma ampla variação de pontos entre os domínios, pode levantar a suspeita de síndrome demencial não-Alzheimer. A estratificação do CDR também está relacionada a sintomas neuropsiquiátricos, perda funcional e custos com cuidados.
O Clinical Dementia Rating apresenta diversas vantagens:
– Baseia-se apenas em dados clínicos, sem necessidade de exames complementares
– Simples de aplicar e de replicável entre examinadores
– Validado em diversas línguas e populações
– Menor influência do “efeito-chão” e “efeito-teto” em comparação a outros instrumentos, como o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM)
Durante a aplicação, é importante não avaliar os domínios com base em outras alterações, como transtornos motores ou de humor, garantindo precisão na avaliação cognitiva.
Por fim, o CDR é um instrumento indispensável para profissionais da saúde e estudantes de geriatria, auxiliando na identificação precoce da demência e no acompanhamento da progressão da doença. Ele também faz parte da avaliação clínica para a dispensação de medicações especiais para Alzheimer, seguindo protocolos do Ministério da Saúde. Contudo, a interpretação do instrumento pode ser, muitas vezes, confusa. Para facilitar o seu uso foi proposto a versão Clinical Dementia Rating – soma das caixas.
Clinical Dementia Rating – CDR
Para a obtenção do resultado do CDR deve-se ter em mente que o domínio Memória (M) é o principal e todos os demais são secundários. Além disso, algumas regras devem ser respeitadas conforme descritas por Montaño et al (2005):
1- M=2 ou mais categorias secundárias; CDR=M;
Exceto:
2- M=0; 2 categorias=M e 3 categorias≠0; CDR=0,5;
Outras situações
3- M=0,5; demais categorias=0; CDR=0,5;
4- M ≥1; demais categorias<1; CDR=0,5;
5- M=1categoria; 2 categorias<M; 2categorias>M; CDR=M;
6- M>2categorias e <3categorias; CDR=M;
7- M<2categorias e >3categorias; CDR=M;
8- M< ou > 4 categorias secundárias; CDR= maioria das secundárias, exceto quando as categorias forem 0 e M=0,5 (regra 3).
Interpretação*:
O Clinical Dementia Rating estratifica o paciente em:
CDR 0: ausência de demência;
CDR 0.5: demência muito leve/incipiente ou demência indefinida ou questionável (sem repercussão nas atividades de vida diária ou quadros potencialmente reversíveis como nos transtornos de humor);
CDR 1: demência leve
CDR 2: demência moderada
CDR 3: demência grave
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Referências:
Chaves MLF, Camozzato AL, Godinho C, Kochhann R, Schuh A, Almeida VL et al. Validity of the clinical dementia rating scale for the detection and staging of dementia in Brazilian patients. Alzheimer Dis Assoc Disord 2007; 21(3): 210-217. https://doi.org/10.1097/WAD.0b013e31811fff2b4.
Cummings J, Hahn-Pedersen JH, Eichinger CS, Freeman C, Clark A, Tarazona LRS et al. Exploring the relationship between patient-relevant outcomes and Alzheimer´s disease progression assessed using the clinical dementia rating scale: a systematic literature review. Front Neurol 2023; 14:1208802. https://doi.org/10.3389/fneur.2023.1208802.
Hughes CP, Berg L, Danziger WL, Coben LA, Martin RL. A new clinical scale for the staging of dementia. Br J Psychiatry 1982; 140: 566-72. https://doi.org/10.1192/bjp.140.6.566.
Maia ALG, Godinho C, Ferreira ED, Almeida V, Schuh A, Kaye J et al. Aplicação da versão brasileira da escala de avaliação clínica da demência (Clinical Dementia Rating – CDR) em amostras de pacientes com demência. Arq Neuropsiquiatr 2006; 64 (2-B): 485-489. https://doi.org/10.1590/S0004-282X2006000300025
Montaño MBMM, Ramos LR. Validade da versão em português da Clinical Dementia Rating. Rev Saude Publica 2005; 39(6): 912-7. https://doi.org/10.1590/s0034-89102005000600007.
Morris JC. The Clinical Dementia Rating (CDR): current version and scoring rules. Neurology 1993; 43 (11): 2412-2414. https://doi.org/10.1212/wnl.43.11.2412-a.
Rikkert MGM, Tona KD, Janssen L, Burns A, Lobo A, Robert P et al. Validity, reliability, and feasibility of Clinical Staging Scales in dementia: A systematic review. Am J Alzheimers Dis Other Demen 2011; 26(5): 357-65. https://doi.org/10.1177/1533317511418954.