Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 07/10/2024
Atualização: 10/04/2026
Os distúrbios do movimento compreendem um grupo heterogêneo de doenças neurológicas que alteram a capacidade de iniciar, controlar ou executar movimentos voluntários e involuntários. Essas condições podem comprometer significativamente a funcionalidade, a mobilidade e a qualidade de vida da pessoa idosa, tornando seu reconhecimento fundamental durante a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA).
Além das manifestações motoras, muitas dessas doenças apresentam sintomas cognitivos, comportamentais e autonômicos que devem ser investigados de forma sistemática, especialmente em pacientes idosos.
Classificação dos distúrbios do movimento
Os distúrbios do movimento são divididos em duas categorias principais, de acordo com a quantidade e o padrão dos movimentos apresentados pelo paciente.
Distúrbios hipercinéticos
Caracterizam-se pela presença de movimentos involuntários excessivos, geralmente anormais e de difícil controle. Esses movimentos variam quanto à velocidade, amplitude, ritmo e duração, podendo ocorrer em repouso ou durante a realização de movimentos voluntários. Entre os principais, destacam-se:
– Tremor: Movimento rítmico, oscilatório e involuntário de uma ou mais partes do corpo
– Coreia: Movimentos rápidos, irregulares, imprevisíveis e não repetitivos
– Distonia: Contrações musculares sustentadas ou intermitentes que provocam posturas anormais e movimentos repetitivos
– Mioclonia: Contrações musculares breves, súbitas e involuntárias
– Tiques: Movimentos ou vocalizações estereotipadas, recorrentes e parcialmente suprimíveis
– Hemibalismo: Movimentos involuntários amplos, vigorosos e geralmente unilaterais
– Atetose: Movimentos lentos, contínuos e contorcidos, predominando nas extremidades
Embora possam ocorrer em qualquer faixa etária, esses distúrbios também são observados em idosos e podem estar relacionados a doenças neurodegenerativas, eventos cerebrovasculares, efeitos adversos de medicamentos ou distúrbios metabólicos.
Distúrbios hipocinéticos
Caracterizam-se pela redução da velocidade e da amplitude dos movimentos voluntários. A manifestação clínica mais importante é a bradicinesia, definida como a lentificação dos movimentos associada à diminuição progressiva de sua amplitude durante movimentos repetitivos.
A principal doença desse grupo é a doença de Parkinson, considerada a causa mais frequente de parkinsonismo. Entretanto, outras condições também podem apresentar manifestações semelhantes, incluindo os parkinsonismos secundários e os parkinsonismos atípicos, que possuem etiologias e prognósticos distintos.
Nos pacientes idosos, os distúrbios hipocinéticos estão frequentemente associados à redução da mobilidade, aumento do risco de quedas, perda da independência funcional e maior necessidade de suporte para as atividades de vida diária.
Importância dos distúrbios do movimento na Avaliação Geriátrica Ampla
A investigação dos distúrbios do movimento deve fazer parte da avaliação clínica da pessoa idosa, pois essas condições repercutem em múltiplos domínios da saúde.
Além dos sintomas motores, é importante avaliar:
– Capacidade funcional
– Equilíbrio e marcha
– Instabilidade postural (avaliada pelo pull test) e risco de quedas
– Cognição
– Humor
– Disfagia
– Estado nutricional
– Continência urinária e fecal
– Sintomas autonômicos
– Uso de medicamentos potencialmente associados ao parkinsonismo
A abordagem multidimensional permite identificar fatores potencialmente reversíveis, estimar o impacto funcional da doença e elaborar um plano terapêutico individualizado.
Sobre a Doença de Parkinson e síndromes parkinsonianas
A doença de Parkinson foi descrita em 1817 por James Parkinson, a partir da observação de pacientes com características motoras semelhantes. Na descrição original, denominada paralisia agitante, destacavam-se sintomas como:
– Tremor em repouso
– Alterações na marcha (festinação)
– Postura encurvada
O diagnóstico da doença de Parkinson é essencialmente clínico e requer:
– Bradicinesia (obrigatória)
Associada a pelo menos um dos seguintes: Tremor de repouso ou rigidez muscular
Atualmente, sabe-se que a doença é uma alfassinucleinopatia, caracterizada pela degeneração de neurônios dopaminérgicos na substância negra. Contudo, esta lesão pode progredir para diferentes áreas do encéfalo, com diversas apresentações clínicas diferentes. Classicamente utilizou-se a escala de Hoehn e Yahr para avaliar a progressão da doença.
As síndromes parkinsonianas englobam condições que apresentam sinais semelhantes à doença de Parkinson, mas com diferentes causas e mecanismos fisiopatológicos.
Essas síndromes são importantes no contexto da avaliação geriátrica, pois impactam diretamente a funcionalidade do idoso.
As síndromes parkinsonianas podem ser classificadas em parkinsonismos secundário ou atípico.
Dentre as causas de parkinsonismo secundário destacam-se: induzido por medicamentos, origem vascular.
Já entre os parkinsonismos atípicos há os quadros neurodegenerativos (como atrofia de múltiplos sistemas, paralisia supranuclear progressiva, degeneração córtico-basal, demência por corpúsculos de Lewy) e os quadros heredodegenerativos (doença de Wilson, doença de Huntington, ataxias espinocerebelares).
Perguntas frequentes:
O que são distúrbios do movimento?
Os distúrbios do movimento são doenças neurológicas que comprometem o controle dos movimentos voluntários ou provocam movimentos involuntários. Essas alterações podem ser classificadas em distúrbios hipercinéticos e hipocinéticos.
Qual é o principal distúrbio hipocinético?
A doença de Parkinson é a principal causa de distúrbio hipocinético e também a causa mais frequente de parkinsonismo.
O diagnóstico da doença de Parkinson depende de exames?
Não. O diagnóstico é predominantemente clínico e baseia-se na presença de bradicinesia associada a tremor de repouso ou rigidez muscular. Exames complementares são utilizados principalmente para excluir outras doenças ou esclarecer casos atípicos.
Todo paciente com doença de Parkinson apresenta tremor?
Não. Embora o tremor seja um sinal clássico, alguns pacientes apresentam predominantemente bradicinesia, rigidez muscular e alterações da marcha.
Quais são os principais sintomas não motores da doença de Parkinson?
Os sintomas não motores incluem comprometimento cognitivo, depressão, ansiedade, distúrbios do sono, disfagia, constipação intestinal, hipotensão ortostática, alterações urinárias, fadiga e dor.
O que é parkinsonismo?
Parkinsonismo é uma síndrome clínica caracterizada por bradicinesia associada a tremor de repouso, rigidez muscular ou instabilidade postural. A doença de Parkinson é sua causa mais frequente, mas outras doenças também podem produzir esse quadro clínico.
Qual a importância da Avaliação Geriátrica Ampla na doença de Parkinson?
A Avaliação Geriátrica Ampla permite identificar alterações funcionais, cognitivas, nutricionais e sociais que influenciam diretamente o prognóstico, o tratamento e a qualidade de vida da pessoa idosa.
Sugestões de leitura:
Berrios GE. Introdução à “Paralisia Agitante”, de James Parkinson (1817). Rev Latinoam Psicopat Fund São Paulo 2016; 19(1): 114-121. https://doi.org/10.1590/1415-4714.2016v19n1p114.9
Munhoz RP, Tumas V, Pedroso JL etc. The clinical diagnosis of Parkinson’s disease. Arq Neuropsiquiatr 2024; 82(6): 1-10. https://doi.org/10.1055/s-0043-1777775
Parkinson J. An essay on the shaking palsy. 1817. J Neuropsychiatry Clin Neurosci 2022; 14(2): 223-36. https://doi.org/10.1176/jnp.14.2.223

