Velocidade de marcha
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 13/09/2024
Atualização: 26/06/2026
A velocidade da marcha é uma medida objetiva da performance física que avalia o tempo necessário para uma pessoa percorrer uma distância predeterminada caminhando em sua velocidade habitual. Na avaliação geriátrica, esse teste é um importante indicador da capacidade funcional, da mobilidade e da reserva fisiológica. Assim é amplamente utilizado para rastreamento de fragilidade e sarcopenia.
Assim, por ser um teste simples, rápido, reprodutível e de baixo custo, a avaliação da velocidade da marcha deve fazer parte da rotina de atendimento à pessoa idosa em ambulatórios, enfermarias, instituições de longa permanência e outros serviços de saúde.
Por que avaliar a velocidade da marcha?
A marcha é uma atividade complexa que depende da integração de diversos sistemas do organismo. Então, para caminhar de forma eficiente, o indivíduo necessita da atuação coordenada dos sistemas:
– Musculoesquelético
– Neurológico
– Cardiorrespiratório
– Vestibular
– Visual
– Proprioceptivo
– Cognitivo.
Além disso, a deambulação exige força muscular adequada para impulsionar o corpo para frente e manter a postura contra a ação da gravidade. Alterações em qualquer um desses sistemas podem reduzir a velocidade da marcha.
A diminuição da velocidade da marcha está associada a diversos desfechos clínicos desfavoráveis, incluindo:
– Maior risco de quedas
– Hospitalização
– Incapacidade funcional
– Declínio cognitivo
– Institucionalização
– Mortalidade.
Por isso, a velocidade da marcha é considerada um importante marcador prognóstico na geriatria.
Velocidade da marcha, funcionalidade, fragilidade e sarcopenia
A capacidade de deambulação integra a avaliação da funcionalidade básica e está presente em instrumentos como os índices de Katz e Barthel. Além disso, é marcador de fragilidade física.
Além disso, a velocidade da marcha é um componente essencial da avaliação da fragilidade e da sarcopenia. Segundo o European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP2), essa medida compõe a avaliação da performance física, etapa utilizada para classificar a gravidade da sarcopenia.
Entretanto, a velocidade da marcha não deve ser interpretada isoladamente. Diversas condições clínicas podem influenciar seu resultado, como:
– Osteoartrose;
– Doenças neurológicas;
– Neuropatias periféricas;
– Comprometimento visual;
– Alterações vestibulares;
– Dor;
– Doenças cardiorrespiratórias;
– Uso de dispositivos auxiliares de marcha.
Assim, a interpretação deve sempre considerar o contexto clínico e os demais componentes da Avaliação Geriátrica Ampla.
Como realizar o teste de velocidade da marcha?
Na literatura científica, existem protocolos utilizando distâncias entre 3 e 30 metros. Contudo, o teste de caminhada de 4 metros é o mais utilizado na prática clínica e em pesquisas.
Dessa forma, essa distância é recomendada pelo European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP2) e pelo Manual de Sarcopenia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) por exigir pouco espaço físico e apresentar excelente reprodutibilidade.
Materiais necessários:
– Fita métrica
– Cronômetro
– Superfície plana e regular
– Fita adesiva ou cones para demarcar a distância.
Preparação do ambiente:
Antes de iniciar o teste:
– Demarque uma distância de 4 metros
– Sempre que possível, acrescente 2,5 metros para aceleração e 2,5 metros para desaceleração
– Certifique-se de que o ambiente seja amplo, iluminado e seguro
– Confirme que o paciente esteja utilizando roupas e calçados adequados
– Explique o procedimento e faça uma demonstração.
Como executar o teste
Solicite que o paciente caminhe em sua velocidade habitual, percorrendo a distância em um único sentido. O uso de dispositivos auxiliares de marcha, como bengalas ou andadores, deve ser permitido quando fizer parte da rotina do paciente.
Após esclarecer todas as dúvidas, dê o comando: “Pronto? 3… 2… 1… Vai!”
Se forem utilizadas áreas de aceleração e desaceleração, cronometre apenas o percurso correspondente aos 4 metros centrais. Caso contrário, inicie o cronômetro no momento em que o paciente começar a caminhar.
Durante toda a avaliação, o examinador deve permanecer próximo ao paciente, preferencialmente caminhando atrás dele, para prevenir quedas.
Uma única tentativa costuma ser suficiente. Entretanto, quando houver dúvida sobre a medida obtida, o examinador pode realizar mais de uma avaliação e utilizar a média dos resultados
Como calcular a velocidade da marcha?
A velocidade é obtida dividindo-se a distância percorrida pelo tempo gasto.
Fórmula: Velocidade (m/s) = Distância (m) ÷ Tempo (s)
Exemplo: distância de 4metros em 5 segundos-> Velocidade: 4/5 = 0,8m/s
*Para facilitar a avaliação, criamos o cronômetro e a calculadora abaixo:
Velocidade de Marcha
Distância (em metros):
Tempo (em segundos):
Interpretação*:
EWGSOP2 e SBGG
Velocidade de marcha < 0,8m/s -> Pior performance física na avaliação de sarcopenia
(Necessários mais que 5s para completar o percurso de 4 metros)
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a mudanças funcionais ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Logo, devem ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Perguntas frequentes
Qual distância deve ser utilizada?
O protocolo de 4 metros é o mais utilizado na prática clínica e recomendado pelo EWGSOP2 e pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.
O paciente pode utilizar bengala ou andador?
Sim. O teste deve refletir a condição habitual de marcha do paciente. Portanto, dispositivos auxiliares podem ser utilizados quando fazem parte da rotina.
Quantas vezes o teste deve ser realizado?
Uma única tentativa geralmente é suficiente. Em situações específicas, o examinador pode repetir a avaliação e utilizar a média dos resultados.
A velocidade da marcha é suficiente para diagnosticar sarcopenia?
Não. A velocidade da marcha avalia a performance física e representa apenas um dos componentes da avaliação da sarcopenia. O diagnóstico deve considerar também a força muscular e a quantidade ou qualidade da massa muscular.
Por que utilizar áreas de aceleração e desaceleração?
Pacientes mais frágeis podem necessitar de alguns metros para atingir uma velocidade estável. A utilização de áreas de aceleração e desaceleração reduz a influência das fases inicial e final da caminhada sobre o resultado do teste.
Sugestões de leitura
Bohannon RW, Andrews AW. Normal walking speed: a descriptive meta-analysis. Physiotherapy 2011; 97(3): 182-189. https://doi.org/10.1016/j.physio.2010.12.004
Bohannon RW, Wang Y. Four-meter gait speed: normative values and reliability determined for adults participating in the NIH Toolbox study. Arch Phys Med Rehabil 2019; 100(3): 509-513. https://doi.org/10.1016/j.apmr.2018.06.031
Cruz-Jentoft A, Bahat G, Bauer J, Boirie Y, Bruyère O, Cederholm T, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing 2019; 48(1): 16-31. https://doi.org/10.1093/ageing/afz046
Lindemann U, Najafi B, Zijlstra W, Hauer K, Muche R, Becker C, et al. Distance to achieve steady state walking speed in frail elderly persons. Gait posture 2008; 27(1): 91-6. https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2007.02.005
Mehmet H, Robinson SR, Yang AWH. Assessment of gait speed in older adults. J Geriatr Phys Ther 2020; 43(1):42-52. https://doi.org/10.1519/jpt.0000000000000224
Middleton A, Fritz SL, Lusardi M. Walking speed: the functional vital sign. J Aging Phys Act 2015; 23(2): 314-322. https://doi.org/10.1123/japa.2013-0236
Pamoukdijan F, Paillaud E, Zelek L, Laurent M, Lévy V, Landre T, et al. Measurement of gait speed in older adults to identify complications associated with frailty: A systematic review. J Geriatr Oncol 2015; 6(6): 484-496. https://doi.org/10.1016/j.jgo.2015.08.006
van Kan GA, Rolland Y, Andrieu S, Bauer J, Beauchet O, Bonnefoy M et al. Gait speed at usual pace as a predictor of adverse outcomes in community-dwelling older people an International Academy on Nutrition and Aging (IANA) Task Force. J Nutr Health Aging 2009; 13(10): 881-889. https://doi.org/10.1007/s12603-009-0246-z
Valente M, Magalhães MAZ, Alexandre TS. Recomendações para o diagnóstico e tratamento da sarcopenia no Brasil. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 2022. https://sbgg.org.br/diagnostico-e-tratamento-da-sarcopenia/
