Oncogeriatria
Por: Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 19/02/2025
Atualização: 29/05/2026
A oncogeriatria é a área que integra os conhecimentos da oncologia e da geriatria. Assim, seu desenvolvimento ocorreu em resposta ao aumento da incidência de câncer entre pessoas idosas. Atualmente, a maior parte dos diagnósticos e mortes relacionadas ao câncer ocorre nessa faixa etária.
Pacientes idosos continuam sub-representados em muitos ensaios clínicos. Logo, como consequência, nem sempre os resultados dos estudos podem ser aplicados diretamente a essa população. Dessa forma, surgiram áreas de conhecimento específicas, como a oncogeriatria, a cardiogeriatria e a nefrogeriatria, com o objetivo de adaptar o cuidado às particularidades do envelhecimento. Além disso, idosos com câncer apresentam maior risco de eventos adversos, perda funcional, hospitalizações e mortalidade. Portanto, identificar fatores de vulnerabilidade é uma etapa essencial do cuidado.
Além da elevada frequência das neoplasias, o envelhecimento está associado a grande heterogeneidade clínica. Logo, pessoas com a mesma idade cronológica podem apresentar diferenças importantes em funcionalidade, cognição, estado nutricional, humor, presença de multimorbidade e reserva fisiológica. Por esse motivo, a avaliação individualizada é fundamental para a tomada de decisões terapêuticas.
Então, essas condições podem influenciar diretamente a resposta ao tratamento oncológico e estão associadas a piores desfechos clínicos. Por isso, sua identificação deve fazer parte da avaliação rotineira do paciente idoso com câncer.
Para tal deve ser adotada a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA). Trata-se de uma ferramenta fundamental na oncogeriatria. Seu objetivo é identificar vulnerabilidades que não são detectadas pela avaliação clínica tradicional. Logo, a partir da AGA, é possível:
– Identificar síndromes geriátricas
– Estimar prognóstico
– Auxiliar na tomada de decisões terapêuticas
– Direcionar intervenções multidisciplinares
– Reconhecer pacientes com potencial benefício de cuidados paliativos
Além disso, a AGA pode contribuir para:
– Redução da toxicidade relacionada ao tratamento (com ferramentes específicas como CARG-TT)
– Melhor adesão terapêutica
– Menor número de internações hospitalares
– Melhor qualidade do cuidado
Dentre os diversos domínios relacionados à AGA, a American Society of Oncology (ASCO) recomenda a avaliação de sete deles durante o cuidado ao paciente idoso com câncer. Abaixo há a listagem desses domínios e alguns instrumentos sugeridos por documentos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG):
– Funcionalidade e mobilidade: índice de Katz, escala de Lawton-Brody, OARS, Timed Up and Go (TUG), velocidade de marcha, Short Physical Performance Battery (SPPB), ECOG, Karnofsky Performance Status (KPS), avaliação de quedas.
– Comorbidades: índice de Charlson, CIRS-G, OARS.
– Cognição: Mini Exame do Estado Mental (MEEM), Mini-Cog, Montreal Cognitive Assessment (MoCA).
– Saúde emocional: Escala de Depressão Geriátrica (GDS), Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), Mental Health Inventory Survey.
– Nutrição: Índice de Massa Corporal (IMC), Mini Avaliação Nutricional (MAN), perda ponderal involuntária.
– Polifarmácia: Critérios de Beers, Critérios STOPP/START, Medication Appropriateness Index.
– Suporte social: Medical Outcomes Study (MOS) Social Support Survey, UCLA 3-Item Loneliness Scale, RAND-36 Health Survey.
O processo de envelhecimento também está associado à redução da reserva fisiológica. Quando essa diminuição se torna clinicamente significativa, pode ocorrer a síndrome da fragilidade. A fragilidade frequentemente está relacionada a outras síndromes geriátricas, incluindo:
– Sarcopenia
– Perda da funcionalidade
– Quedas
– Comprometimento cognitivo
– Desnutrição
O rastreamento da fragilidade também deve fazer parte da avaliação inicial do paciente idoso com câncer. Entre os instrumentos mais estudados na oncogeriatria destacam-se:
– Geriatric-8 (G8)
– Modified Geriatric-8 (mG8)
– Vulnerable Elders Survey-13 (VES-13)
Essas ferramentas auxiliam na identificação de pacientes que podem se beneficiar de uma Avaliação Geriátrica Ampla mais detalhada.
Por fim, a oncogeriatria desempenha papel fundamental no cuidado ao idoso com câncer. A utilização sistemática da Avaliação Geriátrica Ampla permite identificar vulnerabilidades, estimar prognóstico e personalizar estratégias terapêuticas. Além disso, a avaliação da fragilidade, funcionalidade, cognição, nutrição e suporte social contribui para um cuidado mais seguro, centrado na pessoa idosa e baseado em evidências.
Sugestões de leitura:
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Diretrizes Brasileiras de Oncogeriatria. 1a ed. Rio de Janeiro: DOC; 2026. 188 p. https://sbgg.org.br/publicacoes-cientificas/diretrizes-e-guidelines/diretrizes-brasileiras-de-oncogeriatria/
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Manual de Recomendações de Oncogeriatria. 1a ed. Rio de Janeiro: DOC; 2025. 84 p. https://sbgg.org.br/manual-de-recomendacoes-do-oncogeriatria/