Cognição
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 16/01/24
Atualização: 13/03/26
A avaliação cognitiva do idoso é um componente essencial da avaliação geriátrica. A cognição, do latim cognitio, refere-se à capacidade de adquirir e processar conhecimento a partir das informações captadas pelos órgãos dos sentidos. Esse processo depende da atuação integrada de diferentes domínios cognitivos, que são operados por diversas regiões do córtex cerebral. Embora desempenhem funções distintas, esses domínios atuam de forma simultânea e coordenada.
Entre os principais domínios cognitivos avaliados estão:
– Memória
– Linguagem
– Funções executivas
– Habilidades motoras e construtivas
– Atenção e concentração
– Velocidade de processamento
– Personalidade e comportamento
A análise desses domínios permite identificar alterações cognitivas sutis, muitas vezes relacionadas a distúrbios neurológicos, demências ou outras condições associadas ao envelhecimento. A perda cognitiva não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento, embora a idade seja um importante fator de risco. É possível encontrar indivíduos em idades muito avançadas sem alterações cognitivas relevantes. Por isso, é fundamental distinguir o envelhecimento cognitivo normal do envelhecimento patológico.
De forma geral:
– Idosos podem apresentar processamento cognitivo mais lento, o que pode ser esperado
– Linguagem costuma ser um dos domínios menos afetados
– Desempenho cognitivo pode variar amplamente entre indivíduos
Durante a avaliação cognitiva, diversos fatores devem ser considerados:
– Nível educacional
– Evolução e progressão dos sintomas
– Estado cognitivo prévio
– Humor e presença de depressão
– Ansiedade
– Condições socioeconômicas
– Fatores culturais
– Alterações sensoriais (visão e audição)
– Comprometimento motor (distúrbios do movimento, sarcopenia)
– Alterações nutricionais
– Histórico de eventos de vida importantes
Durante a avaliação cognitiva do idoso, é importante considerar diagnósticos diferenciais que podem preceder a demência, como o declínio cognitivo subjetivo (DCS) e o comprometimento cognitivo leve (CCL). O DCS caracteriza-se por uma queixa cognitiva, geralmente relacionada à memória, sem alterações detectáveis em testes objetivos. Essa queixa pode estar presente em um terço a mais da metade dos idosos. Por outro lado, o CLL pode representar um estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência. Ocorre um declínio cognitivo detectável, mas não há impacto significativo nas atividades de vida diária. Pode ser classificado como: amnéstico ou não-amnéstico.
Pacientes com DCS ou CCL frequentemente supervalorizam seus sintomas, acreditando estar desenvolvendo demência. Em contraste, indivíduos com demência muitas vezes não reconhecem o próprio déficit cognitivo, fenômeno conhecido como anosognosia. A diferenciação entre DCS e CCL pode ser difícil. Por isso, muitas vezes é necessária avaliação longitudinal, além da possibilidade de investigação por biomarcadores. Em alguns casos pode ocorrer uma evolução contínua de DCS, para CCL até síndrome demencial estabelecida. Ao mesmo tempo, há possibilidade de regressão do quadro para ausência de perda cognitiva, para ambas situações. Entretanto, também é possível observar estabilização ou regressão dos sintomas
O termo demência funciona como um conceito amplo que engloba diferentes transtornos neurocognitivos. Nessas condições ocorre comprometimento de um ou mais domínios cognitivos, acompanhado de impacto funcional.
Para o diagnóstico, é necessário observar:
– Piora em relação ao estado cognitivo basal
– Ausência de explicação por delirium
– Exclusão de transtornos psiquiátricos como causa principal
Na avaliação é importante investigar o início dos sintomas (súbito ou gradual) e o curso da doença (progressivo, estável ou flutuante). Diversos são os fatores de risco relacionados à demência como metabólicos (hipertensão, diabetes, dislipidemia), trauma, uso de álcool e drogas, doenças neurológicas ou psiquiátricas etc.
A causa mais comum de perda cognitiva progressiva é a doença de Alzheimer. No entanto, várias outras condições podem causar síndrome demencial, como: demência vascular, demência por corpúsculos de Lewy, demência frontotemporal, demência relacionada a doença de Parkinson etc.
Além disso, doenças sistêmicas ou neurológicas também podem contribuir para o comprometimento cognitivo. Para a investigação desses quadro é importante a avaliação clínica amparada com instrumentos de avaliação cognitiva, associada com exames de imagem e laboratoriais.
A avaliação cognitiva do idoso deve utilizar instrumentos validados para a população avaliada, considerando aspectos linguísticos e culturais. Para esta análise é necessário o uso de instrumentos de avaliação global ou aqueles voltados para domínios cognitivos específicos. A avaliação neuropsicológica, realizada por profissional capacitado, permite um estudo mais aprofundado da cognição e o exame distinto de domínios cognitivos específicos. Ao mesmo tempo, é importante levar em conta o nível de escolaridade, que pode influenciar o desempenho em testes cognitivos.
Outro aspecto fundamental é garantir que o paciente esteja confortável durante a aplicação dos instrumentos. Situações de ansiedade ou constrangimento podem gerar resultados imprecisos, fenômeno semelhante ao observado na hipertensão do jaleco branco.
Diversos instrumentos podem ser utilizados para rastreio e avaliação da cognição. Há os instrumentos de avaliação global e de rastreio (desenvolvidos sem se voltar para algum domínio cognitivo de forma específica):
– Mini-Exame do Estado Mental (MEEM ou Mini-Mental)
– Montreal Cognitive Assessment (MoCA)
– 10-Point Cognitive Screener (10-CS)
Alguns instrumentos foram desenvolvidos para avaliar funções cognitivas específicas:
– Teste do Desenho do Relógio (funções executivas e habilidades visuoespaciais)
– Teste de Fluência Verbal (linguagem)
Para estratificação da gravidade do quadro demencial podem ser utilizados:
– Clinical Dementia Rating (CDR)
– CDR soma das caixas
– Escala FAST (Functional Assessment Staging)
– Escore Isquêmico de Hachinski (avalia possibilidade de demência vascular)
Sugestões de leitura:
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