Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 27/04/2025
Atualização: 18/05/2026
Multimorbidade em idosos é a presença simultânea de duas ou mais condições crônicas em uma mesma pessoa, sem necessariamente existir uma doença principal definida.
Dessa forma, esse conceito é diferente da abordagem tradicional centrada em uma única doença. Então, na prática geriátrica, pacientes com multimorbidade frequentemente apresentam necessidades complexas, maior risco de complicações e necessidade de coordenação do cuidado.
O desenvolvimento da multimorbidade pode estar associado ao processo natural de envelhecimento e também a fatores acumulados ao longo da vida, como:
– Hábitos de vida
– Condições socioeconômicas
– Exposição a fatores de risco
– Histórico familiar
– Acesso aos serviços de saúde
– Controle inadequado de doenças crônicas
Qual a diferença entre multimorbidade e comorbidade?
Embora sejam conceitos relacionados, existe uma diferença importante.
A comorbidade geralmente descreve a presença de uma ou mais doenças adicionais associadas a uma condição principal.
Já a multimorbidade considera a coexistência de múltiplas doenças ou condições crônicas, sem estabelecer necessariamente uma doença dominante. Contudo, ainda não há consenso sobre a definição ideal de multimorbidade. Embora o conceito exista desde a década de 1970.
Na população idosa, o conceito de multimorbidade é especialmente relevante porque muitos pacientes apresentam diversas condições que interagem entre si e influenciam diretamente a funcionalidade, o prognóstico e a qualidade de vida.
Por que a multimorbidade é um desafio na geriatria?
Pacientes idosos com múltiplas doenças frequentemente não se encaixam nas recomendações tradicionais de diretrizes clínicas, que geralmente são desenvolvidas considerando doenças isoladas.
Dessa forma, quando várias condições coexistem, podem surgir conflitos entre tratamentos, aumento do número de medicamentos utilizados e maior risco de eventos adversos.
Assim, o cuidado do idoso multimórbido deve considerar:
– Objetivos individuais do paciente
– Expectativa de vida
– Capacidade funcional
– Preferências pessoais
– Riscos e benefícios dos tratamentos
– Qualidade de vida
A abordagem centrada na pessoa idosa é fundamental para estabelecer um plano terapêutico adequado e seguro.
Principais impactos da multimorbidade em idosos
A presença de múltiplas doenças pode modificar significativamente o curso clínico do envelhecimento e aumentar a vulnerabilidade do paciente.
Entre os principais impactos da multimorbidade, destacam-se:
– Maior risco de hospitalização: pacientes multimórbidos apresentam maior frequência de internações, permanência hospitalar prolongada e aumento dos custos em saúde.
– Polifarmácia e interações medicamentosas: O uso simultâneo de vários medicamentos aumenta o risco de efeitos adversos, interações medicamentosas e iatrogenias, especialmente em idosos frágeis.
– Síndromes geriátricas: são paciente com maior risco para serem acometidos por grandes síndromes geriátricas como sarcopenia, fragilidade, perda cognitiva, quedas.
Essas condições devem ser avaliadas de forma integrada durante a Avaliação Geriátrica Ampla.
Além do impacto assistencial, a multimorbidade representa um importante desafio para pesquisas científicas e tomada de decisão clínica. Pacientes com múltiplas doenças apresentam grande heterogeneidade clínica. Isso dificulta a comparação entre grupos, a análise estatística e a interpretação dos desfechos em estudos científicos.
Como avaliar a multimorbidade em idosos?
A avaliação da multimorbidade não deve considerar apenas a quantidade de doenças presentes.
A simples contagem de diagnósticos apresenta limitações, pois diferentes doenças possuem impactos distintos sobre o prognóstico e a funcionalidade. Nem todas as doenças apresentam o mesmo impacto clínico ou prognóstico. Dessa forma, considerar condições leves e graves como equivalentes pode gerar distorções na avaliação do paciente. Além disso, sinais e sintomas inespecíficos podem ser interpretados incorretamente como doenças isoladas. Por exemplo, considerar a tosse crônica como uma única condição sem investigar suas possíveis causas (como rinossinusite, refluxo gastroesofágico, tuberculose ou neoplasias) pode comprometer a precisão prognóstica.
Outros equívocos comuns envolvem considerar condições leves como se fossem graves, ou ainda incluir situações não patológicas, como mudanças alimentares para controle de peso, como comorbidades.
Uma avaliação adequada deve considerar:
– Número de doenças
– Gravidade das condições
– Impacto funcional
– Risco prognóstico
– Uso de medicamentos
– Presença de síndromes geriátricas.
Índices de multimorbidade utilizados na geriatria
Para superar algumas limitações da contagem simples de doenças, foram desenvolvidos instrumentos conhecidos como índices de comorbidade.
Essas ferramentas atribuem diferentes pesos às doenças considerando fatores como gravidade, impacto clínico e risco prognóstico.
Os principais objetivos desses instrumentos são:
– Estimar risco clínico
– Auxiliar decisões terapêuticas
– Comparar populações em pesquisas científicas
– Avaliar prognóstico.
Então, disponibilizamos dois instrumentos:
– Cumulative Illness Rating Scale for Geriatrics (CIRS-G): instrumento focado na população geriátrica.
–Índice de Comorbidades de Charlson (ICC): instrumento clássico amplamente utilizado em diferentes populações;
Limitações dos índices de multimorbidade
Apesar de sua utilidade, os índices de multimorbidade também apresentam limitações. A eficácia desses instrumentos pode variar conforme:
– população avaliada;
– contexto clínico;
– critérios diagnósticos utilizados;
– evolução dos tratamentos disponíveis.
Além disso, avanços diagnósticos e terapêuticos modificam continuamente o prognóstico das doenças, exigindo atualização constante dessas ferramentas.
Perguntas frequentes:
O que significa multimorbidade em idosos?
Multimorbidade em idosos significa a presença de duas ou mais doenças crônicas simultaneamente em uma mesma pessoa. Essa condição exige uma abordagem individualizada devido à sua complexidade clínica.
Quais doenças são comuns em idosos com multimorbidade?
As condições mais frequentes incluem hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, doença renal crônica, DPOC, transtornos mentais e doenças neurodegenerativas.
Como avaliar a multimorbidade?
A avaliação envolve análise clínica completa, considerando doenças presentes, gravidade, funcionalidade, medicamentos utilizados e instrumentos como o Índice de Comorbidades de Charlson e a CIRS-G.
A quantidade de doenças define a gravidade da multimorbidade?
Não. O número de doenças isoladamente não determina a complexidade do paciente. É necessário avaliar gravidade, impacto funcional e prognóstico.
Os índices de comorbidade substituem a avaliação geriátrica?
Não. Esses instrumentos auxiliam a tomada de decisão, mas não substituem a avaliação clínica individualizada e a abordagem centrada na pessoa idosa.
Sugestões de leitura:
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