Multimorbidade
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 27/04/2025
Atualização: 18/05/2026
O aumento da expectativa de vida está diretamente relacionado ao crescimento das doenças crônicas não transmissíveis. Entre elas, destacam-se hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, dislipidemia, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doença renal crônica e transtornos mentais.
Como consequência, observa-se aumento expressivo dos casos de multimorbidade em idosos. Esse cenário está associado tanto ao processo de envelhecimento quanto a fatores acumulados ao longo da vida, incluindo hábitos de vida, condições socioeconômicas e exposição a fatores de risco.
A multimorbidade é caracterizada pela presença simultânea de duas ou mais doenças em um mesmo indivíduo. Em geriatria, essa condição representa um grande desafio clínico, pois os pacientes costumam apresentar quadros complexos e necessidades assistenciais específicas.
Muitas vezes, pessoas com múltiplas doenças não se enquadram adequadamente em diretrizes clínicas tradicionais, que geralmente abordam condições isoladas. Por isso, torna-se essencial uma abordagem individualizada, centrada na pessoa e baseada na coordenação do cuidado.
A coexistência de diversas doenças altera significativamente o prognóstico clínico do paciente idoso. Além disso, as interações entre as enfermidades podem comprometer a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida.
Entre os principais impactos da multimorbidade, destacam-se:
– Maior risco de hospitalização: pacientes multimórbidos apresentam maior frequência de internações, permanência hospitalar prolongada e aumento dos custos em saúde.
– Polifarmácia e interações medicamentosas: O uso simultâneo de vários medicamentos aumenta o risco de efeitos adversos, interações medicamentosas e iatrogenias, especialmente em idosos frágeis.
– Síndromes geriátricas: são paciente com maior risco para serem acometidos por grandes síndromes geriátricas como fragilidade e perda cognitiva.
Além do impacto assistencial, a multimorbidade representa um importante desafio para pesquisas científicas e tomada de decisão clínica.
Pacientes com múltiplas doenças apresentam grande heterogeneidade clínica. Isso dificulta a comparação entre grupos, a análise estatística e a interpretação dos desfechos em estudos científicos.
Outro problema envolve a ausência de consenso sobre a definição ideal de multimorbidade. Embora o conceito exista desde a década de 1970, ainda há diferentes formas de avaliação.
Em muitos casos, a multimorbidade é definida apenas pela soma de doenças presentes em um indivíduo. No entanto, essa estratégia possui limitações importantes. Nem todas as doenças apresentam o mesmo impacto clínico ou prognóstico. Dessa forma, considerar condições leves e graves como equivalentes pode gerar distorções na avaliação do paciente. Além disso, sinais e sintomas inespecíficos podem ser interpretados incorretamente como doenças isoladas. Por exemplo, considerar a tosse crônica como uma única condição sem investigar suas possíveis causas — como rinossinusite, refluxo gastroesofágico, tuberculose ou neoplasias — pode comprometer a precisão prognóstica.
Outros equívocos comuns envolvem considerar condições leves como se fossem graves, ou ainda incluir situações não patológicas, como gestação ou mudanças alimentares para controle de peso, como comorbidades.
Para reduzir essas limitações, foram desenvolvidos os chamados índices de comorbidade. Esses instrumentos atribuem pesos diferentes às doenças, considerando gravidade, impacto funcional e risco clínico. Os índices de comorbidade são amplamente utilizados na geriatria, na pesquisa clínica e na avaliação prognóstica de pacientes idosos. Seu principal objetivo é estimar risco clínico e permitir comparações mais precisas entre diferentes populações. Então, disponibilizamos dois instrumentos:
– Cumulative Illness Rating Scale for Geriatrics (CIRS-G): instrumento focado na população geriátrica.
–Índice de Comorbidades de Charlson (ICC): instrumento clássico amplamente utilizado em diferentes populações;
Apesar de sua utilidade, os índices de multimorbidade também apresentam limitações. A eficácia desses instrumentos pode variar conforme:
– população avaliada;
– contexto clínico;
– critérios diagnósticos utilizados;
– evolução dos tratamentos disponíveis.
Além disso, avanços diagnósticos e terapêuticos modificam continuamente o prognóstico das doenças, exigindo atualização constante dessas ferramentas.
Por fim, a multimorbidade em idosos representa um dos maiores desafios da prática geriátrica moderna. Nesse contexto, os índices de comorbidade auxiliam na avaliação prognóstica, na estratificação de risco e na tomada de decisão clínica. Entretanto, nenhuma ferramenta substitui a avaliação clínica individualizada e a abordagem centrada na pessoa idosa, princípios fundamentais da Avaliação Geriátrica Ampla.
Sugestões de leitura:
Bunn JG, Steell L, Hillman SJ, Witham MD, Sayer AA, Cooper R, et al. Approaches to characterising multimorbidity in older people accessing hospital care: a scoping review. Eur Geriatr Med 2025; https://doi.org/10.1007/s41999-025-01166-3
de Groot V, Beckerman H, Lankhorst GJ, Bouter LM. How to measure comorbidity: a critical review of available methods. J Clin Epidemiol 2003; 56(3): 221-9. https://doi.org/10.1016/s0895-4356(02)00585-1
Feinstein AR. The pre-therapeutic classification of co-morbidity in chronic disease. J Chronic Dis 1970; 23(7): 455-68. https://doi.org/10.1016/0021-9681(70)90054-8
Kojima T, Mizokami F, Akishita M. Geriatric management of older people with multimorbidity. Geriatr Gerontol Int 2020; 20(12): 1105-1111. https://doi.org/10.1111/ggi.14065
Rodrigues LP, Rezende ATO, Delpino FM, Mendonça CR, Noll M, Nunes BP et al. Association between multimorbidity and hospitalization in older adults: systematic review and meta-analysis. Age Ageing 2022; 51(7): afac155. https://doi.org/10.1093/ageing/afac155
Wu J, Zhang H, Shao J, Chen D, Xue E, Huang S, et al. Healthcare for older adults with multimorbidity: A scoping review of reviews. Clin Interv Aging 2023; 18: 1723-1735. https://doi.org/10.2147/cia.s425576
Zhou Y, You Y, Zhang Y, Zhang Y, Yuan C, Xu X. Multimorbidity and risk of dementia: A systematic review and meta-analysis of longitudinal cohort studies. J Prev Alzheimers Dis 2025: 100164. https://doi.org/10.1016/j.tjpad.2025.100164