CARG-TT
Os idosos apresentam uma incidência crescente de neoplasias e, consequentemente, uma maior propensão a complicações relacionadas ao tratamento quimioterápico (QT). Essas complicações decorrem de diversos fatores, como alterações na função renal, menor reserva medular, comorbidades, e redução da funcionalidade. Por essa razão, observa-se uma tendência menor de prescrição de QT para a população idosa acometida por câncer, além da sub-representação dessa faixa etária em ensaios clínicos.
Um importante instrumento para avaliar a toxicidade da QT em idosos é o Escore de Toxicidade de Hurria, que se aplica tanto para neoplasias sólidas quanto hematológicas. Esse instrumento, também conhecido como Cancer and Aging Research Group Toxicity Tool (CARG-TT), avalia onze variáveis, que consideram tanto as características do paciente quanto as da própria doença neoplásica. As informações necessárias para essa avaliação são obtidas rotineiramente na prática clínica da oncogeriatria.
No desenvolvimento do instrumento, Hurria et al. utilizaram o clearance de creatinina como um dos critérios de avaliação, com base na fórmula de Jelliffe. Para esse cálculo, recomenda-se o uso do peso ideal, embora não haja referência específica de como obter essa informação no artigo original. Nele há referência de uma publicação de 1971. No entanto, Jelliffe propôs outra fórmula para o cálculo da função renal em 1973, a qual parece ser a adotada no site do Cancer and Aging Research Group (mycarg.org), e também foi a fórmula utilizada nesta página. Jelliffe et al sugere correção pela superfície corpórea mas não indica um método específico (nesta página adotamos a fórmula dos DuBois). Na tradução do escore por Pontes et al., há uma citação da autora do CARG-TT, indicando que “não há prejuízo ao cálculo do escore com o uso de outras fórmulas para obtenção do clearance de creatinina”.
O escore varia de zero a 23 pontos. Os pacientes são classificados em baixo, moderado ou alto risco de desenvolver toxicidade grave (grau 3 a 5) relacionada à QT, conforme os critérios do National Cancer Institute Common Terminology Criteria for Adverse Events (versão 3.0). Quanto maior a pontuação, maior o risco de toxicidade.
No estudo original, o CARG-TT demonstrou maior capacidade preditiva para reações adversas do que o julgamento clínico ou a escala de Karnofsky, sendo eficaz na identificação de pacientes com maior vulnerabilidade para complicações relacionadas ao tratamento. Portanto, o CARG-TT deve ser utilizado de forma rotineira na avaliação de pacientes candidatos à quimioterapia. Sua capacidade preditiva foi semelhante à de outro instrumento desenvolvido para o mesmo fim, o CRASH (Chemotherapy Risk Assessment Scale for High-Age Patients).
CARG-TT
Interpretação*:
O risco de toxicidade à QT através do CARG-TT é:
Baixo risco (30%): 0 a 05 pontos;
Risco moderado (52%): 06 a 09 pontos;
Alto risco (83%): 10 a 23 pontos.
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
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