Cumulative Illness Rating Scale for Geriatrics(CIRS-G)
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 13/05/2025
Atualização: 18/05/2026
O Cumulative Illness Rating Scale for Geriatrics (CIRS-G) é uma ferramenta utilizada para avaliar a carga de doenças e a multimorbidade em idosos. O instrumento auxilia profissionais da saúde na identificação da gravidade das condições clínicas em diferentes órgãos e sistemas do organismo.
O modelo original do Cumulative Illness Rating Scale (CIRS) foi desenvolvido por Lin et al, em 1968, com o objetivo de revisar os problemas de saúde de acordo com o sistema corporal afetado. Cada condição clínica recebia uma pontuação de zero a quatro, sendo o resultado final obtido pela soma dos escores.
Posteriormente, no início da década de 1990, Miller et al. revisaram o instrumento e adaptaram a escala para a população idosa. Essa atualização deu origem ao CIRS-G, com foco específico na avaliação da morbidade geriátrica.
A versão geriátrica do CIRS trouxe mudanças importantes em relação ao instrumento original. Entre as principais adaptações estão:
– separação entre os sistemas vascular periférico e hematopoiético;
– inclusão da avaliação da mama no sistema endócrino-metabólico;
– maior direcionamento para multimorbidade e envelhecimento.
Além disso, os autores desenvolveram um manual com orientações detalhadas e exemplos clínicos para facilitar a aplicação prática da escala. Embora uma mesma doença possa se encaixar em mais de uma categoria, recomenda-se considerar apenas o sistema correspondente à condição de maior gravidade.
O principal objetivo do CIRS-G é rastrear e quantificar a carga de doenças em idosos. Assim, a escala permite identificar:
– Número de doenças presentes
– Gravidade das comorbidades
– Impacto na funcionalidade das condições clínicas
– Risco de desfechos adversos.
Por esse motivo, o instrumento é frequentemente utilizado na avaliação geriátrica ampla, em pesquisas clínicas e em contextos hospitalares.
O instrumento avalia 14 órgãos e sistemas:
– Cardiovascular
– Vascular periférico
– Hematopoiético
– Respiratório
– Órgãos dos sentidos
– Trato digestivo superior
– Trato digestivo inferior
– Fígado
– Rins
– Sistema geniturinário
– Sistema músculo-esquelético e tegumentar
– Sistema neurológico
– Sistema endócrino-metabólico e mama
– Doenças psiquiátricas.
Essa abordagem permite uma avaliação multidimensional do estado de saúde do idoso.
Cada condição clínica recebe uma pontuação de acordo com a gravidade do quadro:
– Zero: Sem problema clínico identificado.
– Um: problema atual de gravidade leve ou problema passado grave. Qualquer problema médico atual que cause desconforto ou incapacidade leve, ou que tenha exacerbações ocasionais que tenham um impacto geral menor na morbidade;
– Dois: Moderada morbidade, necessita de terapia de primeira linha. Condições médicas que exigem medicação diária de natureza “primeira linha”;
– Três: Quadro grave, presença de disfuncionalidade constante ou problemas crônicos não controláveis. São condições crônicas não compensadas com terapia de primeira linha;
– Quatro: Quadros extremamente graves/ Necessidade de tratamento imediato/ Falência de órgão/ Perda funcional grave. Sendo necessário o tratamento imediato ou presença de falência orgânica terminal ou comprometimento grave da função. Este nível descreve os estágios finais da doença ou incapacidade dentro de uma categoria.
Segundo Miller et al., a análise final do CIRS-G pode ser realizada de cinco maneiras:
– Número total de sistemas acometidos: Avalia quantos órgãos e sistemas apresentam doenças ou alterações clínicas.
– Pontuação global: Corresponde à soma total dos escores, variando de 0 a 56.
– Índice de gravidade: Representa a relação entre a pontuação total e o número de sistemas afetados.
– Número de categorias com escore 3: Identifica quantas doenças apresentam gravidade importante.
– Número de categorias com escore 4: Indica presença de doenças extremamente graves ou falência orgânica.
Essas diferentes formas de análise ajudam a identificar se o paciente apresenta poucas doenças graves ou múltiplas condições leves a moderadas. Apesar disso, ainda não existe consenso sobre qual método possui melhor desempenho clínico.
Assim, tem sido amplamente utilizado na oncogeriatria como ferramenta preditiva de mortalidade, com boa acurácia em pacientes com neoplasias de mama e próstata. Também se mostra útil na previsão de mortalidade em populações idosas em geral e na estimativa do risco de readmissão hospitalar.
1. Coração:
2. Vascular:
3. Hematopoiético (sangue, vasos, medula e sistema linfático):
4. Respiratório (pulmões, brônquios, traquéia):
5. Olhos, ouvidos, garganta e laringe:
6. Aparelho gastrointestinal superior (esôfago, estômago e duodeno):
7. Aparelho gastrointestinal inferior (intestino e hérnias):
8. Fígado (incluindo sistema biliar e pâncreas):
9. Rins (não inclui outros órgãos do sistema urinário):
10. Gênito-urinário (ureteres, bexiga, uretra, próstata, genitais, útero, ovários):
11. Musculoesquelético e tegumento (músculos, ossos e pele):
12. Neurológico (cérebro, medula espinhal e nervos):
13. Endócrino Metabólico e mama:
14. Psiquiátrico:
Interpretação*:
Apesar das cinco diferentes possibilidades de análise proporcionadas pelo instrumento, ainda não há consenso na literatura sobre a melhor forma de utilizar o CIRS-G. De modo geral, observa-se a adoção da pontuação total como uma variável contínua, sendo que, quanto maior o escore, maior a carga de doença apresentada pelo indivíduo, refletindo o grau de multimorbidade. Diversos estudos propuseram pontos de corte distintos para essa escala, com o objetivo de facilitar a estratificação do risco e a aplicação clínica em contextos específicos. Alguns exemplos abaixo:
Rodrígues et al (2011) – Uso do escore total:
0 – 02 pontos: baixa comorbidade;
03 – 08 pontos: média comorbidade;
Mais de 08 pontos: alta comorbidade.
Benderra (2023) – Avaliação para oncogeriatria:
CIRS-G acima de 17 pontos foi associado a menor sobrevida em todos subgrupos de neoplasias (colorretal, mama, próstata, pulmão).
Gomes FL (2018) – Revisão de literatura para dissertação:
| Definição | Estratificação 01 | Estratificação 02 | |
| Escore total | Soma de pontos | Zero ponto: Sem comorbidades 01 – 02 pontos: comorbidade leve 03 – 04 pontos: comorbidade moderada 05 pontos ou mais: comorbidade grave | 0 – 02 pontos: sem comorbidades ou comorbidade leve 03 pontos ou mais: comorbidade moderada a grave |
| Total de categorias assinaladas | Número de sistemas e/ou órgãos que apresentaram alguma morbidade. | 0-4 categorias 05 ou mais categorias | 0-4 categorias 05 ou mais categorias |
| Índice de Gravidade | Índice calculado pela razão entre o escore total e o número total de categorias assinaladas. | 0 a 2,0; Maior que 2,0. | 0 a 2,0; Maior que 2,0. |
| Níveis 3 e/ou 4 de gravidade | Número de sistema/órgãos que apresentaram nível 3 e/ou 4 de gravidade. | 0; 01 ou mais. | 0; 01 ou mais. |
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Sugestões de leitura:
Benderra MA, Serrano AG, Paillaud E, Tapia CM, Cudennec T, Chouaïd C, et al. Prognostic value of comorbidities in older patients with cancer: the ELCAPA cohort study. ESMO Open 2023; 8(5): 101831. https://doi.org/10.1016/j.esmoop.2023.101831
Canoui-Poitrine F, Segaux L, Benderra M, About F, Tournigand C, Laurent M, et al. The prognostic value of eight comorbidity indices in older patients with cancer The ELCAPA cohort study. Cancers (Basel) 2022; 14(9): 2236. https://doi.org/10.3390/cancers14092236
Dias A, Teixeira-Lopes F, Miranda A, Alves M, Narciso M, Mieiro L, et al. Comorbidity burden assessment in older people admitted to a Portuguese University Hospital. Aging Clin Exp Res 2015; 27(3): 323-8. https://doi.org/10.1007/s40520-014-0280-5
Gomes FL. Comorbidade em mulheres com câncer de mama uma avaliação pela Cumulative Illness Rating Scale – Geriatric (CIRS-G). Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz; 2018. 86p. https://arca.fiocruz.br/items/54d71181-59e0-4fef-b183-69227872d9ae
Linn BS, Linn MW, Gurel L. Cumulative Illness Rating Scale. J Am Geriatr Soc 1968; 16(5): 622-6. https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.1968.tb02103.x
Miller MD, Towers A. A manual guidelines for scoring the Cumulative Illness Rating Scale for Geriatrics (CIRS-G). Pittsburg, PA: University of Pittsburgh; 1991.
Miller MD, Paradis CF, Houck PR, Mazumdar S, Stack JA, et al. Rating chronic medical illness burden in geropsychiatric practice and research: application of the Cumulative Illness Rating Scale. Psychiatry Res 1992; 41(3): 237-48. https://doi.org/10.1016/0165-1781(92)90005-n
Rodríguez MAZ, Gómez-Pavon J, Fernández PS, Salinas AF, Guzmán LM, et al. Fiabilidade interobservador de los 4 índices de comorbilidad más utilizados en pacientes ancianos. Rev Esp Geriatr Gerontol 2012; 47(2): 67-70. https://doi.org/10.1016/j.regg.2011.09.012