Cardiogeriatria
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 31/05/2025
Atualização: 05/02/2026
Cardiogeriatria: avaliação cardiovascular no envelhecimento
A cardiogeriatria é a área dedicada ao estudo, avaliação e cuidado das alterações cardiovasculares relacionadas ao envelhecimento, atuando na interface entre a cardiologia e a geriatria. Essa especialidade surgiu na década de 1980 e ganhou relevância com o crescimento acelerado da população idosa.
No Brasil, o Departamento de Cardiogeriatria (DECAGE), vinculado à Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), coordena ações científicas e educacionais na área. Até o momento, foram publicadas duas diretrizes nacionais (2002 e 2010), com atualização mais recente em 2019.
Competências esperadas na cardiogeriatria
A atuação em cardiogeriatria exige um conjunto específico de competências clínicas e relacionais. Entre elas, destacam-se:
– Compreensão das alterações fisiológicas e patológicas do envelhecimento
– Conhecimento dos instrumentos de avaliação geriátrica ampla, incluindo funcionalidade, sarcopenia, fragilidade e multimorbidade
– Capacidade de comunicação efetiva e condução de decisões compartilhadas, especialmente diante de incertezas prognósticas
– Discernimento quanto à proporcionalidade terapêutica
– Habilidade para atuar em equipe multidisciplinar, definindo planos de cuidado centrados no idoso
Desenvolvimento e adaptação do sistema cardiovascular ao longo da vida
O coração é um dos primeiros órgãos a se desenvolver durante a embriogênese. Ao final da terceira semana de gestação, iniciam-se os batimentos cardíacos, assegurando a oxigenação dos tecidos em formação. Por volta da sétima semana, ocorre a formação das quatro câmaras cardíacas, e até a décima semana o coração encontra-se completamente desenvolvido.
Após o nascimento, o sistema cardiovascular passa por importantes adaptações estruturais e funcionais, como o fechamento dos shunts fetais, a transição da oxigenação para os pulmões e o aumento da massa miocárdica.
Alterações cardiovasculares associadas ao envelhecimento
Ao longo da vida, o coração sofre influência de diversos fatores, incluindo hábitos de vida, comorbidades (como hipertensão, diabetes, dislipidemia e doença renal crônica), predisposição genética e mecanismos epigenéticos. No envelhecimento, essas alterações tornam-se mais pronunciadas e podem ser classificadas em diferentes níveis.
Alterações moleculares e celulares
No nível molecular, observa-se aumento do estresse oxidativo, acúmulo de radicais livres, disfunções na sinalização intracelular, maior ativação de sistemas neuro-hormonais (como o sistema renina-angiotensina-aldosterona) e danos aos telômeros.
Já no nível celular, ocorrem perda de miócitos, substituição por tecido fibroso, disfunção mitocondrial, alterações no metabolismo energético e deposição de amiloide.
Alterações estruturais e funcionais do coração
Do ponto de vista estrutural, o envelhecimento cardiovascular pode levar a remodelamento cardíaco, com hipertrofia e/ou dilatação das câmaras, redução da perfusão coronariana e espessamento das válvulas cardíacas.
Funcionalmente, são comuns a disfunção ventricular sistólica e diastólica, a redução da reserva cardíaca ao exercício e a maior predisposição a arritmias, dor anginosa e valvopatias.
Envelhecimento vascular e impacto clínico
O envelhecimento vascular também desempenha papel central na cardiogeriatria. Há disfunção endotelial e espessamento da camada íntima das artérias, com redução da vasodilatação — especialmente pela menor biodisponibilidade de óxido nítrico e maior ação da endotelina.
Rigidez arterial e pressão arterial no idoso
Estruturalmente, ocorre perda progressiva da elasticidade arterial devido ao aumento da deposição de colágeno e à redução de elastina. Na aorta, essas mudanças resultam em:
– Aumento da pressão arterial sistólica
– Elevação da velocidade da onda de pulso
– Aumento da pressão de pulso
Manifestações clínicas frequentes
As alterações cardiovasculares associadas ao envelhecimento podem se manifestar clinicamente como:
– Insuficiência cardíaca
– Arritmias, especialmente fibrilação atrial
– Hipertensão arterial sistêmica
– Valvopatias, como estenose aórtica
– Amiloidose cardíaca do tipo ATTR, relacionada à deposição de transtirretina
Essas condições reforçam a importância da avaliação cardiogeriátrica integrada à avaliação geriátrica ampla, permitindo um cuidado mais preciso e centrado no idoso.
Sugestões de leitura:
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