Fibrilação Atrial
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 05/06/2025
Atualização: 05/02/2026
A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca mais comum na prática clínica e representa um tema central na cardiogeriatria, devido à sua alta prevalência em idosos e às complicações associadas. Caracteriza-se pela perda da contração atrial efetiva, causada por um ritmo elétrico desorganizado e irregular, geralmente com frequências elevadas.
As despolarizações ectópicas costumam se originar próximas às veias pulmonares, no átrio esquerdo, contribuindo para a manutenção da arritmia.
Fisiopatologia da fibrilação atrial
A desorganização da atividade elétrica atrial compromete a sístole atrial, reduzindo o enchimento ventricular e a pré-carga. Como consequência, ocorre estase sanguínea no átrio, especialmente no átrio esquerdo, o que aumenta o risco de formação de trombos.
Caso esses trombos sejam lançados na circulação sistêmica, podem resultar em eventos tromboembólicos, sendo o acidente vascular cerebral (AVC) a complicação mais temida.
Além disso, a elevada frequência de despolarizações atriais pode aumentar a frequência ventricular, levando a sintomas como palpitações e contribuindo para o desenvolvimento ou descompensação da insuficiência cardíaca.
Classificação da fibrilação atrial
A fibrilação atrial pode se apresentar sob diferentes formas clínicas:
– Fibrilação atrial aguda
– Fibrilação atrial paroxística
– Fibrilação atrial persistente
– Fibrilação atrial permanente
Quando não controlada, especialmente nos quadros crônicos, pode ocorrer remodelamento elétrico e estrutural do átrio esquerdo, favorecendo a perpetuação e o agravamento da arritmia.
Manifestações clínicas e diagnóstico
Os sintomas mais frequentes da fibrilação atrial incluem: fadiga, dispneia aos esforços, palpitações, dor torácica. Entretanto, parte dos pacientes idosos pode ser assintomática, o que dificulta o diagnóstico clínico e aumenta o risco de complicações silenciosas.
No exame físico, é comum a identificação de ritmo cardíaco irregular. A confirmação diagnóstica é feita por meio de eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações, que evidencia ausência da onda P e intervalos RR irregularmente irregulares.
Impacto clínico da fibrilação atrial no idoso
Embora a fibrilação atrial isoladamente não represente risco imediato de morte, está fortemente associada a complicações graves, como:
– AVC e outros eventos isquêmicos arteriais
– Insuficiência cardíaca
– Perda de funcionalidade e independência
– Declínio cognitivo
– Internações recorrentes
– Aumento dos custos em saúde
Esses desfechos reforçam a importância da avaliação integrada na cardiogeriatria.
Fatores de risco para fibrilação atrial
Fatores não modificáveis
A idade avançada é um dos principais fatores de risco para FA. Estima-se que cerca de 25% dos indivíduos acima de 55 anos desenvolverão fibrilação atrial ao longo da vida, sendo mais prevalente e de início mais precoce em homens brancos. Fatores genéticos também exercem influência.
Fatores modificáveis
A identificação e o controle dos fatores de risco modificáveis são fundamentais para reduzir a incidência, a gravidade e as complicações da FA. Os principais incluem: hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus tipo 2, obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, insuficência cardíaca.
Predição de risco e escores clínicos
A utilização de escores para predição do risco de desenvolvimento de fibrilação atrial ainda é tema de debate. Entre os diversos modelos propostos, o CHARGE-AF é um dos mais estudados e replicados.
Para o manejo clínico da FA, é fundamental avaliar:
– Estratégia de controle de ritmo e/ou frequência cardíaca
– Indicação de anticoagulação, utilizando escores como o CHA₂DS₂-VA
– Avaliação do risco de sangramento, por meio do HAS-BLED
Essa abordagem estruturada é especialmente relevante na população idosa, em que a decisão terapêutica deve considerar funcionalidade, multimorbidade e preferências do paciente.
Sugestões de leitura:
Elliott AD, Middeldorp ME, Van Gelder IC, Albert CM, Sanders P. Epidemiology and modifiable risk factors for atrial fibrillation. Nat Rev Cardiol 2023; 20 (6): 404-417. https://doi.org/10.1038/s41569-022-00820-8.
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