CHARGE-AF
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 05/06/2025
Atualização: 06/02/2026
Embora ainda seja um tema em debate na literatura científica, o rastreamento da fibrilação atrial (FA) por meio de instrumentos específicos pode contribuir para a adoção de medidas preventivas e para a otimização do prognóstico. Isso ocorre porque permite a identificação precoce de indivíduos com maior risco de desenvolver fibrilação atrial.
O rastreamento da FA pode ser realizado por meio de eletrocardiograma (ECG) isolado, repetido ou contínuo, bem como com o uso de dispositivos eletrônicos, como smartwatches, cada vez mais presentes na prática clínica.
Escores para estimativa do risco de fibrilação atrial
Diversos escores clínicos foram desenvolvidos para estimar o risco de desenvolvimento de fibrilação atrial. Entre os principais estão o Framingham Heart Study (FHS) e o Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC), ambos inicialmente baseados em coortes únicas e dependentes de informações obtidas por ECG.
O que é o escore CHARGE-AF?
Com o objetivo de facilitar a aplicação na prática clínica, foi desenvolvido o escore CHARGE-AF, proposto por Alonso et al. Esse modelo foi construído a partir da análise de cinco grandes coortes dos Estados Unidos e da Europa, incluindo dados do FHS e do ARIC.
O estudo original apresentou duas versões do escore. A versão expandida incluía informações eletrocardiográficas, porém o acréscimo desses dados não aumentou de forma significativa a capacidade preditiva. Por esse motivo, nesta página é apresentado o modelo do CHARGE-AF que não requer ECG, tornando-o mais acessível para o rastreamento clínico.
Indicações e limitações do CHARGE-AF
O CHARGE-AF deve ser aplicado em indivíduos sem diagnóstico prévio de fibrilação atrial, com idade entre 46 e 94 anos e creatinina sérica inferior a 2 mg/dL.
A validação do escore na coorte EPIC Norfolk demonstrou tendência à superestimação do risco, sugerindo a necessidade de recalibração. Em estudo posterior conduzido por Khurshid et al., envolvendo cerca de 4 milhões de indivíduos, pacientes com rastreamento positivo pelo CHARGE-AF apresentaram:
– risco 2,87 vezes maior de desenvolver fibrilação atrial;
– risco 1,92 vezes maior de acidente vascular cerebral (AVC);
– risco 2,51 vezes maior de insuficiência cardíaca (IC).
A diretriz conjunta das sociedades ACC/AHA/ACCP/HRS, publicada em 2023, reconhece a existência de diferentes instrumentos para avaliação do risco de fibrilação atrial, sendo o CHARGE-AF o mais amplamente validado e replicado.
Segundo essas diretrizes, indivíduos classificados como de alto risco apresentam maiores taxas de detecção de FA no rastreamento com ECG. No entanto, ainda não há evidências conclusivas de que o rastreamento sistemático, seguido de intervenção, resulte em redução da mortalidade ou da incidência de AVC.
Por sua vez, a diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), publicada em 2024, recomenda o rastreamento da fibrilação atrial em indivíduos com mais de 65 anos, utilizando dados do exame físico e do ECG. Também sugere considerar o rastreamento em pessoas com mais de 75 anos ou em indivíduos acima de 65 anos com escore CHA2DS2-VA elevado. Contudo, não há recomendações específicas sobre o uso de questionários clínicos para esse fim.
CHARGE-AF
*Não utilizar se creatinina acima de 2,0mg/dL
Interpretação*:
O CHARGE-AF avaliar o risco de desenvolvimento de FA no intervalo de cinco anos, sendo estratificado da seguinte maneira:
Abaixo de 2,5%: risco baixo;
2,5 – 5%: risco intermediário;
Acima de 5%: risco elevado
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Referências:
Alonso A, Krijthe BP, Aspelund T, Stepas KA, Pencina MJ, et al. Simple risk model predicts incidence of atrial fibrillation in a racially and geographically diverse population: the CHARGE-AF consortium. J Am Heart Assoc 2013;2(2):e000102. https://doi.org/10.1161/JAHA.112.000102.
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