HAS-BLED
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 01/07/2025
Atualização: 10/02/2026
A terapia anticoagulante é parte fundamental do tratamento de pacientes com fibrilação atrial (FA) que apresentam risco moderado a alto de eventos cardioembólicos. Esse risco é estimado por escores específicos, como o CHA₂DS₂-VA, amplamente utilizado na prática clínica.
No entanto, a anticoagulação não é isenta de riscos, o que torna essencial a avaliação cuidadosa da relação risco-benefício. Nesse contexto, a estimativa do risco de sangramento assume papel central, especialmente em populações idosas e com multimorbidade.
O que é o escore HAS-BLED?
Trata-se de uma das ferramentas mais utilizadas para estimar o risco de sangramento em pacientes com fibrilação atrial. Proposto em 2010 por Pisters et al., o escore foi desenvolvido a partir de uma coorte europeia com o objetivo de fornecer uma ferramenta simples e prática para prever sangramentos maiores em um período de um ano. Considerou-se sangramento maior aquele que envolve hemorragia intracraniana, necessidade de hospitalização, queda de hemoglobina superior a 2 g/dL e/ou necessidade de transfusão sanguínea.
Pontuação e desempenho do escore HAS-BLED
O instrumento varia de zero a nove pontos e apresenta capacidade preditiva baixa a moderada. Apesar disso, demonstra boa calibração entre o risco estimado e os eventos observados, especialmente em pacientes classificados como de risco baixo ou elevado.
Quando comparado a outros escores de risco hemorrágico — como HEMORR₂HAGES, ORBIT, GARFIELD-AF e ATRIA — o HAS-BLED apresenta desempenho igual ou ligeiramente superior, independentemente do tipo de anticoagulante utilizado.
HAS-BLED versus escores tromboembólicos
O escore HAS-BLED mostrou-se mais eficaz na predição de eventos hemorrágicos do que escores voltados ao risco tromboembólico, como CHADS₂ e CHA₂DS₂-VASc. Entre suas principais vantagens destacam-se:
– simplicidade de aplicação
– facilidade de memorização (acrônimo)
– utilidade prática na rotina clínica
Uso do HAS-BLED com anticoagulantes orais diretos
Embora a coorte original tenha sido composta majoritariamente por pacientes em uso de antagonistas da vitamina K, estudos posteriores demonstraram que o instrumento mantém acurácia semelhante em pacientes tratados com anticoagulantes orais diretos, incluindo inibidores da trombina e do fator Xa.
HAS-BLED
Interpretação*:
O HAS-BLED não deve ser utilizado para decidir sobre a indicação ou não da anticoagulação, mas sim como ferramenta para identificar pacientes com fatores de risco para sangramento. É importante destacar que, quanto maior a pontuação obtida nesse escore, maior é o risco de eventos hemorrágicos.
Zero ponto: baixo risco
Um e dois pontos: risco intermediário
Três ou mais pontos: risco elevado
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Referências:
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