Insuficiência Cardíaca
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação 11/07/2025
Atualização 12/02/2025
A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica complexa, decorrente de alterações estruturais e/ou funcionais do coração. Estima-se que mais de 64 milhões de pessoas vivam com essa condição no mundo.
Sua prevalência aumenta progressivamente com o envelhecimento populacional, tornando-se um tema central na cardiogeriatria.
Além da alta frequência, a insuficiência cardíaca está associada a mortalidade elevada, que pode variar entre 50% e 75% em cinco anos após o diagnóstico. Também representa importante ônus econômico, devido às hospitalizações recorrentes e ao tratamento contínuo.
Etiologia da Insuficiência Cardíaca
A insuficiência cardíaca é frequentemente multifatorial.
Entre as principais causas, destacam-se:
– Doença arterial coronariana
– Miocardiopatias
– Arritmias (como fibrilação atrial)
– Valvopatias
– Pericardiopatias
– Doenças infiltrativas
Também podendo resultar de doenças sistêmicas com repercussão cardíaca, anormalidades congênitas, medicações cardiotóxicas (como quimioterápicos). No Brasil, destaca-se ainda a persistente relevância da Doença de Chagas como causa importante de IC, configurando um problema de saúde pública.
Definição da Insuficiência Cardíaca
A definição universal estabelece que a insuficiência cardíaca é caracterizada por sinais e sintomas decorrentes de anormalidade estrutural e/ou funcional do coração. Trata-se de um conjunto de sinais e sintomas causados por anormalidade estrutural e/ou funcional do coração, evidenciada por pelo menos um dos seguintes achados:
– Fração de ejeção (FE) menor que 50%
– Aumento anormal das câmaras cardíacas
– Razão E/e’ superior a 15
– Hipertrofia ventricular moderada a grave
– Valvopatias obstrutivas ou regurgitantes de grau moderado a grave.
Além desses critérios, o diagnóstico deve ser sustentado por pelo menos um dos seguintes achados adicionais: elevação dos níveis de peptídeos natriuréticos, evidência objetiva de congestão pulmonar ou sistêmica de origem cardiogênica, observada por exames de imagem, como radiografia de tórax ou ecocardiografia (com elevação das pressões de enchimento), ou ainda por meio de medidas hemodinâmicas identificadas por cateterismo.
Manifestações clínicas
Clinicamente, a insuficiência cardíaca manifesta-se comumente por dispneia e fadiga aos esforços, resultando em redução da tolerância ao exercício e retenção hídrica, que leva à congestão pulmonar e/ou sistêmica. Entre os sinais físicos mais frequentes estão o edema de membros inferiores, estertores crepitantes à ausculta pulmonar, e sinais de congestão venosa, como a elevação da pressão venosa jugular, estase da jugular e refluxo hepatojugular. Nos exames complementares, é possível identificar a redução da fração de ejeção ventricular e/ou o aumento das pressões intracardíacas, tanto em repouso quanto durante o esforço físico.
Classificação Funcional
A insuficiência cardíaca pode ser classificada de diferentes formas, sendo as mais utilizadas a classificação funcional da New York Heart Association (NYHA) e a classificação baseada na fração de ejeção do ventrículo esquerdo. A classificação da NYHA avalia o grau de limitação funcional do paciente, de acordo com a presença e a intensidade da dispneia durante atividades físicas, sendo dividida em quatro classes (I a IV), com progressiva limitação funcional. Por ser uma avaliação funcional, essa classificação pode variar conforme a adesão ao tratamento e mudanças no estilo de vida. Na Classe I, não há limitação para atividades físicas habituais. Na Classe II, há leve limitação, com sintomas em atividades comuns. A Classe III é caracterizada por limitação acentuada, com sintomas mesmo em esforços leves. Já a Classe IV representa incapacidade funcional, com sintomas mesmo em repouso.
Com base na fração de ejeção do ventrículo esquerdo, geralmente estimada por meio de ecocardiografia, a IC é classificada em:
– IC com fração de ejeção reduzida (ICFER), com FE <40%;
– IC com fração de ejeção preservada (ICFEP), com FE ≥50%;
– IC com fração de ejeção intermediária, entre 40% e 49%, grupo que pode receber diferentes nomenclaturas dependendo do contexto.
A diferenciação entre ICFER e ICFEP é fundamental, pois as estratégias terapêuticas são distintas para cada forma clínica. O diagnóstico da ICFEP, em especial, pode ser desafiador, exigindo o uso de escores diagnósticos como o H2FPEF. Além disso, o tratamento varia conforme a presença de descompensação aguda ou crônica.
Sugestões de leitura:
Bozkurt B, Coats A, Tsutsui H. Universal definition and classification of heart failure. J Card Fail 2021: S1071-9164(21)00050-6. https://doi.org/10.1016/j.cardfail.2021.01.022.
Heidenreich PA, Bozkurt B, Aguilar D, Allen LA, Byun JJ, Colvin MM, et al. 2022 AHA/ACC/HFSA Guideline for the management of heart failure: A report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice guidelines. Circulation 2022; 145(18): e895-e1032. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001063.
Savarese G, Becher PM, Lund LH, Seferovic P, Rosano GMC, Coats AJS. Global burden of heart failure: a comprehensive and updated review of epidemiology. Cardiovasc Res 2023; 118(17): 3272-3287. https://doi.org/10.10193/cvr/cvac013.