H2FPEF
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação 11/07/2025
Atualização 12/02/2026
O escore H2FPEF é uma ferramenta clínica desenvolvida para auxiliar no diagnóstico da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP). O conhecimento sobre esta entidade tem evoluído significativamente ao longo dos anos, o que tem contribuído para um maior reconhecimento dessa condição.
O diagnóstico da insuficiência cardíaca (IC) baseia-se em achados clínicos e laboratoriais, sendo classificada como ICFEP quando a fração de ejeção do ventrículo esquerdo é igual ou superior a 50%. Nesse subtipo, observam-se aumentos nas pressões de enchimento do ventrículo esquerdo — tanto em repouso quanto sob estresse — detectáveis por meio de métodos invasivos ou não invasivos.
A ICFEP é mais prevalente entre mulheres idosas e está associada a diversos fatores de risco, como hipertensão arterial, obesidade, histórico de infarto do miocárdio, fibrilação atrial, diabetes mellitus, síndrome metabólica e nefropatia. Sua importância epidemiológica tem crescido rapidamente, representando atualmente mais da metade dos casos de insuficiência cardíaca. Entre os idosos, essa proporção ultrapassa os 70%, sendo a idade um dos principais fatores de risco.
Apesar dos avanços na área, a identificação da ICFEP ainda apresenta desafios, sendo frequentemente subdiagnosticada, especialmente em contextos ambulatoriais. Muitos pacientes relatam sintomas inespecíficos, como dispneia, sem apresentarem sinais evidentes de congestão. Além disso, os níveis de peptídeos natriuréticos podem estar dentro da faixa de normalidade, principalmente em pessoas com índice de massa corporal (IMC) elevado.
O que é o Escore H2FPEF?
O Escore H2FPEF é um sistema de pontuação baseado em variáveis clínicas e ecocardiográficas que estima a probabilidade de ICFEP.
Ele foi proposto por Reddy et al., em 2018, a partir de um estudo realizado na Clínica Mayo. O desenvolvimento do escore teve como base avaliação hemodinâmica invasiva durante exercício.
O diagnóstico de ICFEP no estudo original foi definido por:
– Pressão capilar pulmonar em repouso (≥ 15 mmHg)
– Ou ≥ 25 mmHg durante o esforço
Foram excluídos pacientes com doenças valvares, miocardiopatias, pericardite constritiva, hipertensão arterial pulmonar ou histórico de transplante cardíaco. Além de causas não cardíacas para dispneia
Componentes do Escore H2FPEF
O acrônimo H2FPEF corresponde a seis variáveis, quatro clínicas e duas ecocardiográficas.:
– H (heavy): obesidade
– H (hypertensive): hipertensão arterial sistêmica
– F (atrial fibrillation): fibrilação atrial
– P (pulmonary hypertension): hipertensão pulmonar ao ecocardiograma
– E (elderly): idosos
– F (filling pressures): elevação de pressões de enchimento (E/e’ aumentado)
Vantagens do Escore H2FPEF
O Escore H2FPEF apresenta características que facilitam sua aplicação:
– Desenvolvimento com validação hemodinâmica invasiva
– Fácil aplicação na prática clínica
– Dispensa exames laboratoriais
– Boa acurácia diagnóstica
Além disso, o escore também se correlaciona com risco de hospitalização e mortalidade.
Limitações do Escore H2FPEF
Embora útil, o Escore H2FPEF não substitui o julgamento clínico. Não devendo ser utilizado em:
– Pacientes assintomáticos
– Casos com diagnóstico já estabelecido de insuficiência cardíaca
– Situações com causa alternativa clara para dispneia
Vale ressaltar que, pontuações baixas não excluem completamente ICFEP, especialmente em apresentações atípicas, como cardiomiopatias infiltrativas.
H2FPEF
Interpretação*:
O escore varia de zero a nove pontos. Quanto maior a pontuação, maior a probabilidade do diagnóstico. Além de indicar pior prognóstico, após confirmação.
Zero e um ponto: baixa probabilidade (ICFEP improvável, avaliar causas não cardíacas para a dispneia);
Dois a cinco pontos: probabilidade intermediária (necessidade de exames complementares);
Seis a nove pontos: alta probabilidade (provavelmente ICFEP)
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Sugestões de leitura:
Borlaug BA, Sharma K, Shah SJ, Ho JE. Heart failure with preserved ejection fraction: JACC Scientific Statement. J Am Coll Cardiol 2023; 81(18): 1810-1834. https://doi.org/10.1016/j.jacc.2023.01.049.
Dunlay SM, Roger VL, Redfield MM. Epidemiology of heart failure with preserved ejection fraction. Nat Rev Cardiol 2017; 14(10): 591-602. https://doi.org/10.1038/nrcardio.2017.65.
Fernandes-Silva MM. Escore diagnósticos na Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada. ABC Heart Fail Cardiomyop 2022; 2(3): 275-280.https://doi.org/10.36660/abchf.20220057.
Heidenreich PA, Bozkurt B, Aguilar D, Allen LA, Byun JJ, Colvin MM, et al. 2022 AHA/ACC/HFSA Guideline for the management of heart failure: A report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice guidelines. Circulation 2022; 145(18): e895-e1032. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001063.
Kittleson MM, Panjrath GS, Amancherla K, Davis LL, Deswal A, Dixon DL, et al. 2023 ACC Expert consensus decision pathway on management of heart failure with preserved ejection fraction: A report of the American College of Cardiology solution set oversight committee. J Am Coll Cardiol 2023; 81(18): 1835-1878. https://doi.org/10.1016/j.jacc.2023.03.393.
Reddy YNV, Carter RE, Obokata M, Redfield MM, Borlaug BA. A simple, evidence-based approach to help guide diagnosis of heart failure with preserved ejection fraction. Circulation 2018; 138(9): 861-870. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.118.034646.