Dor
Por: Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 31/07/2025
Atualização: 09/11/2025
O processo de envelhecimento está frequentemente associado ao acúmulo de doenças crônicas, o que aumenta o risco de perda de funcionalidade e a progressão para estados de fragilidade. Paralelamente, observa-se um aumento significativo da queixa de dor entre os idosos, especialmente de dores crônicas, o que representa um importante desafio clínico e de saúde pública. Contudo, é importante frisar que dor não é algo normal dentro do processo de envelhecimento.
A dor é uma experiência subjetiva, individual e autorreferida, com natureza multidimensional, envolvendo componentes sensoriais, afetivos, funcionais e sociais. Além disso, possui aspectos culturais e espirituais, variando de acordo com a percepção individual e coletiva. A forma como a dor é vivenciada e expressa também pode estar relacionada às expectativas sociais, sendo, por vezes, considerada “aceitável” em diferentes intensidades conforme o contexto cultural e o histórico do paciente.
Classifica-se a dor como crônica quando sua duração ultrapassa três meses. Na população idosa, sua etiologia costuma ser multifatorial, com destaque para as dores osteomusculares, neuropatias e vasculopatias periféricas. A incidência de dor oncológica também é elevada nesse grupo etário, devido à maior prevalência de casos de oncogeriatria. A presença de alterações cognitivas pode comprometer a capacidade do idoso em descrever com precisão a localização e a intensidade da dor, dificultando o diagnóstico e prejudicando a escolha adequada das intervenções terapêuticas.
De modo geral, a dor pode ser classificada em três grandes grupos:
– Dor nociceptiva: ocorre em resposta à estimulação de receptores periféricos na pele ou em tecidos profundos. Geralmente é bem localizada e tende a regredir com a remoção do agente causador. No entanto, processos inflamatórios podem favorecer sua cronificação.
– Dor neuropática: resulta de lesão ou disfunção do sistema nervoso somatossensitivo, central ou periférico. É frequentemente descrita como sensação de queimação, formigamento, choque elétrico ou ardência.
– Dor nociplástica: caracteriza-se por alterações na modulação da dor no sistema nervoso central, sem evidência de dano tecidual ou lesão neural identificável. Os sintomas costumam ser difusos, multifocais e de localização imprecisa, com associação frequente a fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas e humor.
A dor em idosos acarreta diversas consequências negativas, como redução da capacidade funcional, limitação para a prática de atividades físicas, isolamento social, maior risco de institucionalização e agravamento de sintomas psiquiátricos, como transtornos de humor e ansiedade. É importante salientar que pacientes portadores de dor crônica tendem a utilizar mais medicamentos (seja sob prescrição, seja por conta própria) e com isto há o aumento do risco de efeitos adversos e complicações relacionadas à polifarmácia. Além do risco de dependência química, como com uso inadequado de opioides.

Apesar da alta prevalência, a dor ainda é frequentemente subtratada em idosos, que muitas vezes recebem menos encaminhamentos para tratamentos multiprofissionais. Isso resulta em assistência inadequada e piora na qualidade de vida. É fundamental que todos os profissionais de saúde estejam atentos à dor em seus pacientes, buscando identificar sua localização, intensidade, fatores desencadeantes e de alívio, bem como o impacto sobre as atividades diárias. Além disso, a abordagem terapêutica deve envolver profissionais de diferentes formações, a depender da origem do quadro.
A avaliação da dor em idosos exige sensibilidade e, muitas vezes, a utilização de diferentes termos, como “incômodo”, “queimação” ou “desconforto”, já que nem todos os pacientes utilizam a palavra “dor”. Além disso, sinais clínicos como taquicardia, alterações de pressão arterial, gemência ou posturas antálgicas devem ser observados, pois a dor pode estar presente mesmo na ausência de causas físicas evidentes.
Diversos instrumentos foram desenvolvidos para auxiliar na avaliação da dor em idosos. Os instrumentos baseados em autorrelato, geralmente unidimensionais, avaliam a intensidade do sintoma por meio da escala numérica, escala visual-analógica (EVA), escala facial de dor e escala verbal. Já os instrumentos observacionais são úteis em pacientes com dificuldades de comunicação, especialmente em casos de déficit cognitivo, como o PAINAD (Pain Assessment in Advanced Dementia) e o PACSLAC (Pain Assessment Checklist for Seniors with Limited Ability to Communicate), desenvolvidos especificamente para pessoas com demência e dificuldade de comunicação. Há ainda instrumentos multidimensionais que contemplam outros aspectos da dor, além da intensidade, como os físicos, os emocionais, os sociais, os psicológicos e os econômicos. Dentre estes instrumentos há o Geriatric Pain Measure (GPM), voltado para a população geriátrica. Há ainda escalas voltadas para condições específicas, como dor lombar e osteoartrite. Além dos instrumentos para diferenciação entre dor neuropática e dor nociceptiva, como o DN4.
Sugestões de leitura:
Aguiar DS, Pinheiro IM. Multidimensional instruments validated in Brazil for pain evaluation in the elderly: narrative review. BrJP [Internet[ 2019; 2(3): 289-92. doi: 10.5935/2595-0118.20190051.
Barcellos DK, Santos FC. Dor no idoso. 1a. edição. Rio de Janeiro: DOC; 2023, 174p.
McLennan AIG, Winters EM, Gagnon MM, Hadjistavropoulos T. The psychometric assessment of the older adult in pain: A systematic review of assessment instruments. Clin Psychol Rev 2024; 114: 102513. doi: 10.1016/j.cpr.2024.102513.
Royal College of Physicians, British Geriatrics Society and British Pain Society. The assessment of pain in older people: national guidelines. Concise guidance to good practice series, No 8. London: RCP, 2007.
Schofield P, Abdulla A. Pain assessment in the older population: what the literature says. Age Ageing 2018; 47(3): 324-327. doi: 10.1093/ageing/afy018.