Short Physical Performance Battery – SPPB
(versão brasileira)
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 12/01/2026
O envelhecimento está associado à perda de capacidade física, um fenômeno complexo influenciado por diversos fatores, como sexo, nutrição, sedentarismo, suporte social, vulnerabilidade socioeconômica e multimorbidade. Em geral, esse declínio ocorre de forma gradual e progressiva, podendo ser retardado ou até parcialmente revertido por meio de intervenções terapêuticas adequadas. Entretanto, em algumas situações, a perda funcional pode ocorrer de maneira súbita, como consequência de eventos agudos, a exemplo de fratura de quadril ou acidente vascular encefálico.
A avaliação da capacidade física em idosos pode ser realizada por meio de autorrelato, como entrevistas estruturadas, ou por medidas baseadas em desempenho, utilizando instrumentos validados. As avaliações baseadas em performance apresentam vantagens importantes, como maior objetividade, reprodutibilidade e possibilidade de aplicação em diferentes populações, permitindo comparações entre estudos, desde que sejam utilizadas versões devidamente traduzidas e culturalmente adaptadas.
Entre os instrumentos amplamente utilizados para mensurar a capacidade física destaca-se a Short Physical Performance Battery (SPPB). O SPPB apresenta boa capacidade preditiva para eventos adversos, como quedas, hospitalizações e mortalidade, além de ser utilizado na avaliação de funcionalidade, sarcopenia e fragilidade. O instrumento foi desenvolvido por Guralnik et al., com apoio do National Institute on Aging, no contexto do estudo Established Populations for Epidemiologic Studies of the Elderly (EPESE), nos Estados Unidos. Seu objetivo principal é avaliar a função física dos membros inferiores por meio de três componentes: força muscular, velocidade de marcha e equilíbrio estático.
Recomenda-se que a aplicação do SPPB seja realizada por avaliadores devidamente treinados, sendo fundamental que o examinador demonstre previamente ao paciente como executar cada tarefa. A segurança do indivíduo avaliado deve ser garantida durante todo o procedimento. Trata-se de um instrumento de fácil aplicação, com tempo de execução moderado, geralmente entre dez e quinze minutos, além de apresentar boa reprodutibilidade.
O SPPB é composto por três testes:
– Teste do equilíbrio: capacidade de manter-se de pé, em superfície plana e estática, durante dez segundos. Deve ser repetido com três diferentes posições dos pés: lado a lado, semi-tandem e tandem;
– Teste de velocidade de marcha: calcular a velocidade de marcha habitual do paciente, sendo possível o uso de dispositivos (como bengala). No estudo original utilizou-se uma distância de 2,4 metros (oito pés). Na validação brasileira há sugestão de uso de distância de três metros ou quatro metros;
– Teste de levantar-se da cadeira: cronometrar-se o tempo para levantar e sentar cinco vezes consecutivas numa cadeira sem apoio lateral.
A pontuação total do SPPB varia de zero a doze pontos, sendo que cada teste recebe uma pontuação de zero a quatro pontos. Pontuações mais elevadas indicam melhor desempenho físico.
O SPPB requer poucos recursos materiais e estruturais para sua aplicação. Apesar de sua simplicidade, é essencial que os profissionais sejam treinados para o uso adequado do instrumento, cujas orientações estão disponíveis em https://sppbguide.com/. Entre suas limitações destacam-se o efeito teto e a menor capacidade de discriminar diferenças de desempenho entre idosos com boa performance física. Além disso, o instrumento foi desenvolvido especificamente para a avaliação da função dos membros inferiores.
Versão Brasileira da Short Physical Performance Battery (SPPB)
Todos os testes devem ser realizados na ordem em que são apresentados. As instruções aos pacientes devem ser dadas exatamente como estão descritas.
1. Testes de Equilíbrio (1A, 1B, 1C)
1A Posição em pé, com os pés juntos:
O paciente deve conseguir ficar em pé sem utilizar bengala ou andador. Ele pode ser ajudado a levantar-se para ficar na posição
- a) Agora vamos começar a avaliação
- b) Eu gostaria que o(a) Sr(a) tentasse realizar vários movimentos com o corpo
- Primeiro eu demonstro e explico como fazer cada movimento
- d) Depois o(a) Sr(a) tenta fazer o mesmo
- e) Se o(a) Sr(a) não puder fazer algum movimento, ou sentir-se inseguro(a) para realiza-lo, avise-me e passaremos para o próximo teste
- f) Vamos deixar bem claro que o(a) Sr(a) não tentará fazer qualquer movimento se não se sentir seguro(a)
- g) O(a) Sr(a) tem alguma pergunta antes de começarmos?
Agora eu vou mostrar o 1o movimento. Depois, o(a) Sr(a) fará o mesmo
1. Demonstre:
- a) Agora, fique em pé, com os pés juntos, um encostado no outro, por 10 segundos
- b) Pode usar os braços, dobrar os joelhos ou balançar o corpo para manter o equilíbrio, mas procure não mexer os pés
- c) Tente ficar nesta posição até eu falar “pronto”
2. Fique perto do paciente para ajudá-lo a ficar em pé com os pés juntos
3. Caso seja necessário, segure o braço do paciente para ficar na posição e evitar que ele perca o equilíbrio
4. Assim que o paciente estiver com os pés juntos, pergunte:
- “O(a) senhor(a) está pronto(a)?
5. Retire o apoio, se foinecessário ajudar o paciente a ficar em pé na posição, e diga:
- “Preparar, já” (disparando o cronômetro)
6. Pare o cronômetro depois de 10 segundos, ou quando o paciente sair da posição, ou segurar o seu braço dizendo:
- “Pronto, acabou”
7. Se o paciente não conseguir se manter na posição por 10 segundos, marque o resultado e prossiga para o Teste de Velocidade de Marcha
1B. Posição em pé, com um pé parcialmente à frente (semi-tandem)
Agora eu vou mostrar o 2º movimento. Depois o(a) Sr(a) fará o mesmo
1. Demonstre
- a) Eu gostaria que o(a) Sr(a) colocasse um dos pés um pouco mais à frente do outro pé, até ficar com o calcanhar de um pé encostado ao lado do dedão do outro pé
- b) Fique nesta posição por 10 segundos
- c) O(a) Sr(a) pode colocar tanto um pé quanto o outro na frente, o que for mais confortável
- d) O(a) Sr(a) pode usar os braços, dobrar os joelhos ou o corpo para manter o equilíbrio, mas procure não mexer os pés
- e) Tente ficar nesta posição até eu falar “pronto”
2. Fique perto do paciente para ajudá-lo a ficar em pé com um pé parcialmente à frente
3. Caso seja necessário, segure o braço do paciente para ficar na posição e evitar que ele perca o equilíbrio
4. Assim que o paciente estiver na posição, com o pé parcialmente à frente, pergunte:
- “O(a) senhor(a) está pronto(a)?
5. Retire o apoio, caso tenha sido necessário ajudar o paciente a ficar em pé na posição, e diga:
- “Preparar, já” (disparando o cronômetro)
6. Pare o cronômetro depois de 10 segundos, ou quando o paciente sair da posição ou segurar o seu braço, dizendo:
- “Pronto, acabou”
7. Se o paciente não conseguir se manter na posição por 10 segundos, marque o resultado e prossiga para o Teste de Velocidade de Marcha
1C. Posição em pé, com um pé à frente (tandem):
Agora eu vou mostrar o 3º movimento. Depois o(a) Sr(a) fará o mesmo
1. Demonstre
- a) Eu gostaria que o(a) Sr(a) colocasse um dos pés totalmente à frente do outro até ficar com o calcanhar deste pé encostado nos dedos do outro pé
- b) Fique nesta posição por 10 segundos
- c) O(a) Sr(a) pode colocar qualquer um dos pés na frente, o que for mais confortável
- d) O(a) Sr(a) pode usar os braços, dobrar os joelhos ou o corpo para manter o equilíbrio, mas procure não mexer os pés
- e) j) Tente ficar nesta posição até eu avisar quando parar
2. Fique perto do paciente para ajudá-lo a ficar em pé com um pé à frente
3. Caso seja necessário, dê somente o suporte necessário ao braço do paciente para evitar que ele perca o equilíbrio
4. Assim que o paciente estiver na posição, com o pé à frente, pergunte: “O(a) Sr(a) está pronto?”
5. Retire o apoio, caso tenha sido necessário ajudar o paciente a ficar em pé na posição, e diga: “Preparar, já!” (disparando o cronômetro)
6. Pare o cronômetro depois de 10 segundos, ou quando o paciente sair da posição ou segurar o seu braço, dizendo: “Pronto, acabou”
2. Teste de velocidade de Marcha
Material: fita crepe ou fita adesiva, espaço de 3 ou 4 metros, fita métrica ou trena e cronômetro
2A. Primeira tentativa:
Agora eu vou observar o(a) Sr(a) andando normalmente Se precisar de bengala ou andador para caminhar, pode utilizá-los
1. Demonstre a caminhada para o paciente
- Eu caminharei primeiro e só depois o(a) Sr(a) irá caminhar da marca inicial até ultrapassar completamente a marca final, no seu passo de costume, como se estivesse andando na rua para ir a uma loja
- a) Caminhe até ultrapassar completamente a marca final e depois pare
- b) Eu andarei com o(a) Sr(a). Sente-se seguro(a) para fazer isso?
- a) Quando eu disser “Já”, o(a) Sr(a) começa a andar
- b) “Entendeu?” Assim que o paciente disser que sim, diga: “Então, preparar, já!”
- Vamos fazer o último teste.Ele mede a força de suas pernas. O(a) Sr(a) se sente seguro(a) para levantar-se da cadeira sem ajuda dos braços?
- Eu vou demonstrar primeiro. Depois, o(a) Sr(a) fará o mesmo
- a) Primeiro, cruze os braços sobre o peito e sente-se com os pés apoiados no chão
- b) Depois levante-se completamente mantendo os braços cruzados sobre o peito e sem tirar os pés do chão
- “Por favor, levante-se completamente mantendo os braços cruzados sobre o peito”
- Agora o(a) Sr(a) se sente seguro para levantar-se da cadeira completamente cinco vezes, com os pés bem apoiados no chão e sem usar os braços?
- a) Por favor, levante-se completamente o mais rápido possível cinco vezes seguidas, sem parar entre as repetições
- b) Cada vez que se levantar, sente-se e levante-se novamente, mantendo os braços cruzados sobre o peito
- c) Eu vou marcar o tempo com um cronômetro
- “Preparar, já”
- Se o paciente usar os braços
- Após um minuto, se o paciente não completar o teste
- Quando achar que é necessário para a segurança do paciente
2. Posicione o paciente em pé, com a ponta dos pés tocando a marca inicial
3. Dispare o cronômetro assim que o paciente tirar o pé do chão
4. Caminhe ao lado e logo atrás do participante
5. Quando um dos pés do paciente ultrapassar completamente marca final, pare de marcar o tempo
2B. Segunda tentativa:
1. Posicione o paciente em pé com a ponta dos pés tocando a marca inicial
2. Dispare o cronômetro assim que o paciente tirar o pé do chão
3. Caminhe ao lado e logo atrás do paciente
4. Quando um dos pés do paciente ultrapassar completamente a marca final pare de marcar o tempo
3. Teste de levantar-se da Cadeira
Material: cadeira com encosto reto, sem apoio lateral, com aproximadamente 45 cm de altura e cronômetro. A cadeira deve estar encostada à parede ou estabilizada de alguma forma, para impedir que se mova durante o teste
3A. Pré-teste (levantar-se da cadeira uma vez)
1. Certifique-se de que o paciente esteja sentado, ocupando a maior parte do assento, mas com os pés bem apoiados no chão. Não precisa necessariamente encostar a coluna no encosto da cadeira, isso vai depender da altura do paciente
2. Demonstre e explique os procedimentos
3. Anote o resultado
4. Se o paciente não conseguir levantar-se sem usar os braços, não realize o teste, apenas diga: “Tudo bem, este é o fim dos testes”
5. Finalize e registre o resultado e prossiga para a pontuação completa da SPPB
3B. Teste levantar-se da cadeira cinco vezes
1. Demonstre e explique os procedimentos
2. Quando o paciente estiver sentado, adequadamente, como descrito anteriormente, avisa que vai disparar o cronômetro, dizendo:
3. Conte em voz alta cada vez que o paciente se levantar, até a quinta vez
4. Pare se o paciente ficar cansado ou com a respiração ofegante durante o teste
5. Pare o cronômetro quando o paciente levantar-se completamente pela quinta vez
6. Pare também:
7. Se o paciente parar e parecer cansado antes de completar os cinco movimentos, pergunte-lhe se ele pode continuar
8. Se o paciente disser “Sim”, continue marcando o tempo. Se o participante disser “Não”, pare e zere o cronômetro
Interpretação*:
A interpretação da SPPB pode variar a depender do autor, apresentamos uma das mais utilizadas na literatura.
Zero a três pontos: Incapacidade ou desempenho muito ruim;
Quatro a seis pontos: Desempenho baixo;
Sete a nove pontos: Desempenho moderado;
Dez a doze pontos: Bom desempenho.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a mudanças funcionais ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Referências:
Exter SH, Koenders N, Wees P, Berg MGA. A systematic review of the psychometric properties of physical performance tests for sarcopenia in community-dwelling older adults. Age Ageing. 2024;53(6):afae113. doi:10.1093/ageing/afae113.
Guralnik JM, Simonsick EM, Ferrucci L, Glynn RJ, Berkman LF, Blazer DG, et al. A short physical performance battery assessing lower extremity function: association with self-reported disability and prediction of mortality and nursing home admission. J Gerontol. 1994;49(2):M85–94. doi:10.1093/geronj/49.2.m85.
Jung HW, Baek JY, Jang IY, Guralnik JM, Rockwood K, Lee E, et al. Short Physical Performance Battery as a crosswalk between frailty phenotype and deficit accumulation frailty index. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 2021;76(12):2249–2255. doi:10.1093/gerona/glab087.
Nakano MM. Versão brasileira da Short Physical Performance Battery – SPPB: adaptação cultural e estudo da confiabilidade. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação; 2007. Dissertação de Mestrado.
Silva CFR, Ohara DG, Matos AP, Pinto ACPN, Pegorari MS. Short Physical Performance Battery as a measure of physical performance and mortality predictor in older adults: a comprehensive literature review. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(20):10612. doi:10.3390/ijerph182010612.