Dor neuropática
Por: Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 23/10/2025
Atualização: 01/11/2025
A dor neuropática (DN) é um dos três grandes grupos de classificação da dor, ao lado da dor nociceptiva e da dor neuroplástica. Trata-se de uma condição de fisiopatologia complexa e ainda não completamente esclarecida. O quadro doloroso pode ser agudo ou persistir por meses após a lesão inicial, devido a alterações na resposta neurológica que aumentam a percepção da dor pelo indivíduo.
A dor neuropática crônica afeta aproximadamente 7 a 10% da população mundial, com aumento de prevalência após os 50 anos de idade. Está associada à redução da capacidade funcional e produtiva, além de maior demanda por cuidados de saúde. Frequentemente, associa-se a transtornos de ansiedade e de humor, alterações cognitivas, insônia e piora da qualidade de vida.
A DN decorre de lesão ou disfunção do sistema nervoso somatossensorial, podendo ter origem periférica ou central. Suas causas são variadas, incluindo neuropatias periféricas (diabéticas ou não), traumas (crânio-encefálicos, raquimedulares ou periféricos), cirurgias, infecção por herpes-zóster, hérnias discais, esclerose múltipla, acidente vascular cerebral e neuropatias induzidas por medicamentos, entre outras.
A apresentação clínica da dor neuropática é heterogênea. O quadro pode ser contínuo ou intermitente, surgindo de forma espontânea ou provocada. Os sintomas podem ser classificados como sensitivos positivos ou negativos.
Entre os sintomas positivos, observam-se o aumento da sensibilidade — como na alodinia (dor após estímulo normalmente indolor), na hiperalgesia (resposta dolorosa exagerada) e na dor espontânea (na ausência de estímulo, com sensação de queimação, formigamento ou choque).
Já os sintomas negativos correspondem à redução da sensibilidade, como na hipoestesia (diminuição da percepção tátil e dolorosa) e na hipoalgesia (redução da dor).
Algumas condições apresentam manifestações clínicas típicas, como a neuralgia do trigêmeo, a polineuropatia dolorosa, a neuralgia pós-herpética e a dor neuropática central.
Dada sua ampla variabilidade clínica e fisiopatológica, o tratamento da dor neuropática requer uma abordagem multidimensional, englobando estratégias farmacológicas e não farmacológicas. Entre os fármacos mais utilizados estão antidepressivos, anticonvulsivantes, opioides e agentes tópicos (como a capsaicina). As medidas não farmacológicas incluem terapias de neuromodulação, fisioterapia e reabilitação, procedimentos cirúrgicos (como bloqueios nervosos e talamotomias) e psicoterapia.
Atualmente, não existem biomarcadores ou exames laboratoriais específicos considerados padrão-ouro para o diagnóstico da dor neuropática. Assim, a anamnese detalhada e o relato do paciente permanecem fundamentais. Para auxiliar na identificação dessa condição, foram desenvolvidos instrumentos validados, como o Douleur Neuropathique 4 (DN4), o Leeds Assessment of Neuropathic Symptoms and Signs (LANSS) e o Neuropathic Pain Symptoms Inventory (NPSI), amplamente utilizados na prática clínica e na pesquisa.
Sugestões de leitura
Attal N, Bouhassira D, Colvin L. Advances and challenges in neuropathic pain: a narrative review and future directions. Br J Anaesth 2023; 131(1): 79-92. doi: 10.1016/j.bja.2023.04.021.
Campos LO, Carvalho GHV, Araújo JVG, Ramalho VM, Baia BD, Oliveira AMS et al. Dor neuropática – perspectivas atuais e desafios futuros. Braz J Develop 2023; 9(3): 9691 – 9704. doi: 10.34117/bjdv9n3-055.