Escala de Equilíbrio de Berg
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 05/07/2024
Atualização: 15/06/2026
O que é equilíbrio corporal?
O equilíbrio corporal é a capacidade de manter a estabilidade postural durante atividades estáticas e dinâmicas. O equilíbrio estático permite que o indivíduo permaneça em pé com segurança. Já o equilíbrio dinâmico possibilita a realização de movimentos, mudanças de direção e deslocamentos sem quedas ou instabilidade.
A manutenção do equilíbrio depende da integração de diversos sistemas, incluindo o cerebelo, o tronco cerebral, o sistema vestibular, o sistema visual e o sistema proprioceptivo. Além disso, é necessária uma resposta muscular adequada aos estímulos gerados pelo sistema nervoso.
Dessa forma, alterações nesses mecanismos podem comprometer a marcha, aumentar o risco de quedas e reduzir a capacidade funcional, especialmente em pessoas idosas.
Quando investigar alterações do equilíbrio?
As alterações do equilíbrio devem ser investigadas em idosos com histórico de quedas, medo de cair, instabilidade postural ou dificuldades durante a marcha.
Durante a anamnese, o paciente pode relatar:
– Sensação de insegurança ao caminhar
– Tendência a tropeços ou quedas
– Instabilidade durante mudanças de direção
– Dificuldade para levantar-se ou permanecer em pé
– Sensação de desequilíbrio ou oscilação corporal
A avaliação sistemática do equilíbrio faz parte da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) e auxilia na identificação de idosos com maior risco de incapacidade funcional.
Desenvolvimento da Escala de Equilíbrio de Berg?
A Escala de Equilíbrio de Berg (EEB), conhecida internacionalmente como Berg Balance Scale, é um instrumento clínico utilizado para avaliar o equilíbrio corporal e o risco de quedas. A escala foi proposta inicialmente em 1989 e validada em 1992 por uma equipe multiprofissional composta por profissionais de enfermagem, medicina, fisioterapia e terapia ocupacional em Montreal, Canadá. Assim, seu objetivo é avaliar o desempenho do indivíduo em situações que exigem controle postural e equilíbrio funcional.
Como é realizada a aplicação?
A Escala de Equilíbrio de Berg é composta por 14 tarefas que avaliam diferentes componentes do equilíbrio, incluindo:
– Equilíbrio estático
– Equilíbrio dinâmico
– Transferências posturais
– Controle da marcha
– Movimentos em base fixa de sustentação
Entre as atividades avaliadas estão:
– Permanecer sentado
– Levantar-se da cadeira
– Permanecer em pé sem apoio
– Inclinar-se para frente
– Girar o corpo
– Transferir-se entre superfícies
Cada item recebe pontuação de 0 a 4 pontos, de acordo com o desempenho observado. Logo, a pontuação total varia de 0 a 56 pontos, com pontuações mais elevadas indicando melhor capacidade de equilíbrio.
Principais aplicações clínicas
A Escala de Equilíbrio de Berg é amplamente utilizada em:
– Avaliação geriátrica
– Programas de prevenção de quedas
– Reabilitação neurológica
– Reabilitação vestibular
– Acompanhamento de idosos com fragilidade
– Monitoramento da resposta a intervenções terapêuticas.
Pode ser aplicada em idosos residentes na comunidade, em instituições de longa permanência e em ambientes hospitalares. Além disso, apresenta boa correlação com outros instrumentos de avaliação funcional, como o Timed Up and Go (TUG) e a Escala de Tinetti.
Vantagens da Escala de Equilíbrio de Berg
Entre os principais benefícios da EEB destacam-se:
– Fácil aplicação
– Baixo custo
– Boa reprodutibilidade
– Avaliação de situações próximas às atividades cotidianas
– Capacidade de monitorar a evolução clínica
– Ampla utilização em pesquisas científicas
Limitações da Escala de Equilíbrio de Berg
Apesar de amplamente utilizada, a aplicação costuma demandar entre 15 e 20 minutos, o que pode dificultar seu uso em alguns cenários clínicos.
Além disso, a escala apresenta efeito teto em idosos saudáveis e fisicamente ativos. Nesses indivíduos, a capacidade de prever futuras quedas é limitada, uma vez que muitos alcançam pontuações próximas ao valor máximo.
Por esse motivo, a interpretação dos resultados deve sempre considerar o contexto clínico, a funcionalidade e os demais fatores de risco para quedas.
Escala de Equilíbrio de Berg
1. Posição sentada para posição em pé:
Por favor, levante-se. Tente não usar suas mãos para se apoiar.
2. Permanecer em pé sem apoio:
Por favor, fique em pé por 2 minutos sem se apoiar. Se o paciente for capaz de permanecer em pé por 2 minutos sem apoio, dê o número total de pontos para o item No. 3. Continue com o item No. 4.
3. Permanecer sentado sem apoio nas costas, mas com os pés no chão ou em um banquinho:
Por favor, fique sentado sem apoiar as costas com os braços cruzados por 2 minutos.
4. Posição em pé para posição sentada:
Por favor, sente-se.
5. Transferências:
Arrume as cadeiras perpendicularmente ou uma de frente para a outra para uma transferência em pivô. Peça ao paciente para transferir-se de uma cadeira com apoio de braço para uma cadeira sem apoio de braço, e vice-versa. Você poderá utilizar duas cadeiras (uma com e outra sem apoio de braço) ou uma cama e uma cadeira.
6. Permanecer em pé sem apoio com os olhos fechados:
Por favor, fique em pé e feche os olhos por 10 segundos.
7. Permanecer em pé sem apoio com os pés juntos:
Junte seus pés e fique em pé sem se apoiar.
8. Alcançar a frente com o braço estendido permanecendo em pé:
Levante o braço a 90o. Estique os dedos e tente alcançar a frente o mais longe possível. (O examinador posiciona a régua no fim da ponta dos dedos quando o braço estiver a 90o. Ao serem esticados para frente, os dedos não devem tocar a régua. A medida a ser registrada é a distância que os dedos conseguem alcançar quando o paciente se inclina para frente o máximo que ele consegue. Quando possível, peça ao paciente para usar ambos os braços para evitar rotação do tronco).
9. Pegar um objeto do chão a partir de uma posição em pé:
Pegue o sapato/chinelo que está na frente dos seus pés.
10. Virar-se e olhar para trás por cima dos ombros direito e esquerdo enquanto permanece em pé:
Vire-se para olhar diretamente atrás de você por cima do seu ombro esquerdo sem tirar os pés do chão. Faça o mesmo por cima do ombro direito. (O examinador poderá pegar um objeto e posicioná-lo diretamente atrás do paciente para estimular o movimento).
11. Girar 360 graus:
Gire-se completamente ao redor de si mesmo. Pausa. Gire-se completamente ao redor de si mesmo em sentido contrário.
12. Posicionar os pés alternadamente no degrau ou banquinho enquanto permanece em pé sem apoio:
Toque cada pé alternadamente no degrau/banquinho. Continue até que cada pé tenha tocado o degrau/banquinho quatro vezes.
13. Permanecer em pé sem apoio com um pé à frente:
(demonstre para o paciente) Coloque um pé diretamente à frente do outro na mesma linha; se você achar que não irá conseguir, coloque o pé um pouco mais à frente do outro pé e levemente para o lado.
14. Permanecer em pé sobre uma perna:
Fique em pé sobre uma perna o máximo que você puder sem se segurar.
Interpretação*:
Na Escala de Equilíbrio de Berg quanto menor a pontuação maior o risco para quedas. Há diferentes proposições quanto ao ponto de corte a ser utilizado a depender do cenário clínico em que se encontra o paciente (comunidade, institucionalizado, hospitalizado, em reabilitação etc). Idosos mais longevos tendem a ter pontuações menores, assim como os que utilizam dispositivos assistivos (bengala ou muleta).
Dessa forma, apresentamos os pontos de corte sugeridos por diferentes autores. Assim como a sensibilidade (S) e especificidade (E) quando apresentado nas publicações.
Idosos em Comunidade
Berg e cols (1992):
Acima de 45 pontos: seguro para deambulação independente
Abaixo de 45 pontos: necessita de investigação, supervisão ou uso de dispositivos assistido
Shumway-Cook e cols (1997)
Ponto de corte: 49 pontos ou menos (S 77%, E 86%)
Abaixo de 36 pontos o risco de quedas (06 meses) é próximo a 100%
Santos e cols (2010)
Ponto de corte: 49 pontos ou menos (para não praticantes de atividade física) (S 91% E 92%)
Escala não alcançou sensibilidade suficiente entre os praticantes de atividade física
Idosos Institucionalizados
Nackachima e cols (2020)
Ponto de corte: 49 pontos ou menos (S 72%, E 74%)
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a mudanças funcionais ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Assim, deve ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Sugestões de leitura:
Berg KO, Wood-Dauphinee SLW, Williams JI, Gayton D. Measuring balance in the elderly: preliminary development of an instrument.Physiotherapy Canada 1989 41:6, 304-311. https://doi.org/10.3138/ptc.41.6.304
Berg KO, Wood-Dauphinee SLW, Williams JI, Maki B. Measuring balance in the elderly: validation of an instrument. Can J Public Health. 1992 Jul-Aug:83 Suppl 2:S7-11.
Miyamoto ST, Lombardi Junior I, Berg KO, Ramos LR, Natour J. Brazilian version of the Berg balance scale. Braz J Med Biol Res [Internet]. 2004;37(9):1411–21. https://doi.org/10.1590/S0100-879X2004000900017
Nackachima MA, Souza ML, Scheicher ME. Determinação de valores de referência para os testes Escala de Equilíbrio de Berg e Velocidade de Marcha em idosos institucionalizados. Rev Kairos-Gerontol 2002; 23(3): 241-252. https://doi.org/10.23925/2176-901X.2020v23i3p241-252
Santos GM, Souza ACS, Virtuoso JF et al. Valores preditivos para o risco de quedas em idosos praticantes e não praticantes de atividade física por meio do uso da escala de equilíbrio de Berg. Rev Bras Fisioter 2011; 15(2):95-101. https://doi.org/10.1590/S1413-35552011000200003
Shumway-Cook A, Baldwin M, Polissar NL et al. Predicting the probability for falls in community-dwelling older adults. Phys Ther 1997; 77(8):812-9. https://doi.org/10.1093/ptj/77.8.812
