Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 19/07/2024
Atualização: 14/05/2026
A Escala de Pfeffer, também conhecida como Pfeffer’s Functional Activities Questionnaire (PFAQ), é um instrumento amplamente utilizado na avaliação da funcionalidade de idosos. Assim, seu principal objetivo é identificar comprometimentos nas atividades instrumentais de vida diária (AIVD), especialmente em pacientes com suspeita de alteração da cognição.
O instrumento foi desenvolvido no início da década de 1980 por Pfeffer e colaboradores. A proposta era criar uma ferramenta capaz de diferenciar idosos com quadros demenciais daqueles sem alterações cognitivas significativas, principalmente em indivíduos que vivem na comunidade.
Um dos diferenciais do Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer é a tentativa de reduzir a influência da escolaridade e das condições socioeconômicas na avaliação. Logo, os autores priorizaram a análise da funcionalidade social atual do indivíduo, considerando sua capacidade habitual ao longo da vida.
Por outro lado, diferentemente de testes cognitivos tradicionais, o foco do PFAQ está na funcionalidade do idoso e não diretamente nos sintomas cognitivos. Então, os descritores de capacidade cognitiva foram intencionalmente excluídos durante o desenvolvimento da ferramenta. O objetivo era avaliar como o comprometimento funcional interfere na autonomia e independência do paciente.
Além disso, na prática clínica, a escala é frequentemente utilizada em conjunto com instrumentos de avaliação cognitiva para aumentar a precisão diagnóstica no rastreio de demência.
Em estudo publicado em 1982, Pfeffer e colaboradores compararam o PFAQ com a escala de Lawton e Brody, outro instrumento utilizado na avaliação das AIVDs. Contudo, as resultados mostraram que o Questionário de Pfeffer apresentou melhor equilíbrio entre sensibilidade e especificidade:
– PFAQ: sensibilidade de 85% e especificidade de 81%
– Lawton & Brody: sensibilidade de 57% e especificidade de 92%
Segundo os autores, esse desempenho pode estar relacionado ao fato de o PFAQ avaliar atividades mais complexas do cotidiano, além de possuir maior variação na escala de classificação. Logo, quando associado a testes cognitivos, o instrumento pode ajudar a diferenciar o envelhecimento normal de quadros demenciais, reduzindo a ocorrência de falsos-positivos.
O PFAQ avalia o desempenho do idoso em dez atividades distintas relacionadas às AIVDs. Cada atividade recebe pontuação de zero a três pontos:
– 0 pontos: independente
– 1 ponto: dificuldade leve
– 2 pontos: necessidade de ajuda
– 3 pontos: dependência completa
Logo, o escore final varia de 0 a 30 pontos. Então, quanto menor a pontuação, maior a independência funcional e a autonomia do idoso.
Por fim, a aplicação da Escala de Pfeffer deve ser realizada com um informante confiável, preferencialmente alguém que conviva regularmente com o idoso. Essa recomendação existe porque pacientes com comprometimento cognitivo podem apresentar relatos inconsistentes sobre sua própria funcionalidade. Por isso, familiares, cuidadores ou pessoas próximas costumam fornecer informações mais precisas sobre o desempenho do paciente nas atividades do dia a dia.
Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer
Preenche cheques, paga contas, verifica o saldo no talão de cheque, controla as necessidades financeiras:
Faz seguro (de vida, de carro, de casa), lida com negócios ou documentos, faz imposto de renda:
Compra roupas, utilidades domésticas e artigos de mercearia sozinho(a):
Joga baralho, xadrez, faz palavras cruzadas, trabalhos manuais ou tem algum outro passatempo:
Esquenta água, faz café ou chá, e desliga o fogão:
Prepara uma refeição completa (por ex.: carne, frango ou peixe, legumes, sobremesa):
Presta atenção, entende e comenta novelas, jornais ou revistas:
Acompanha os eventos atuais no bairro ou nacionalmente:
Lembra de compromissos, tarefas domésticas, eventos familiares (como aniversários) e medicações:
Sai do bairro, dirige, anda, pega ou troca de ônibus, trem ou avião:
Interpretação*:
Há diferentes propostas para pontos de corte utilizados na literatura, tanto para funcionalidade quanto para avaliação cognitiva.
Avaliação funcional (Pfeffer, 1982):
Dependência funcional: 06 pontos ou mais (Sensibilidade 85%, Especificidade 81%)
Avaliação cognitiva (Jacinto, 2008; Jacinto 2014):
Estudo em ambulatório geral na cidade de São Paulo com idosos de baixa escolaridade. Após triagem inicial com Mini-Mental ou short-IQCODE (pontos de corte usuais), o paciente foi considerado como rastreio positivo para demência se:
– PFAQ (corte: 03 pontos): Sensibilidade (S)84% e Especificidade (E) 94%;
– PFAQ (corte: 03 pontos) e fluência verbal semântica com animais (corte: 10 pontos) S 88,4% E 93,5%;
– PFAQ (corte: 03 pontos) e Teste do Desenho do Relógio (corte: 06 pontos – versão Sunderland) S 93% E 92,5%
Avaliação cognitiva (Aprahamian, 2011):
Analfabetos: 12 pontos S 85,3% E 76,5%
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a mudanças funcionais ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Contudo, devem ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Referências:
Aprahamian I, Martinelli JE, Cecato J, Yassuda MS. Screening for Alzheimer’s disease among illiterate elderly: accuracy analysis for multiple instruments. J Alzheimers Dis 2011; 26(2):221-9. https://doi.org/10.3233/jad-2011-110125
Assis LO, Assis MG, Paula JJ, Malloy-Diniz LF. O questionário de atividades funcionais de Pfeffer: Revisão integrativa da literatura brasileira. Estud Interdiscipl envelhec 2015; 20(1):297-324. https://doi.org/10.22456/2316-2171.50189
Dutra MC, Ribeiro RS, Pinheiro SB, Melo GF, Carvalho GA. Accuracy and reliability of the Pfeffer Questionnaire for the Brazilian elderly population. Dement Neuropsychol 2015; 9(2): 176-83. https://doi.org/10.1590/1980-57642015DN92000012
Jacinto AF. Alterações cognitivas em pacientes idosos atendidos em ambulatório geral de clínica médica: Tese para obtenção do título de doutor em ciências. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2008. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5138/tde-12012009-172647/publico/Alessandrofjacinto.pdf
Jacinto AF, Brucki SMD, Porto CS, Martins MA, Citero VA, Nitrini R. Suggested instruments for General Practitioners in countries with low schooling to screen for cognitive impairment in the elderly. Int Psychogeriatr 2014; 26(7):1121-5. https://doi.org/10.1017/s1041610214000325
Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah Jr CH, Chance JM, Bates D, Detels S et al. A survey diagnostic tool for senile dementia. Am J Epidemiol 1981; 114(4):515-27. https://doi.org/10.1093/oxfordjournals.aje.a113217
Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah Jr CH, Chance JM, Filos S. Measurement of functional activities in older adults in the community. J Gerontol 1982; 37(3): 323-9. https://doi.org/10.1093/geronj/37.3.323
Sanchez MAS, Correa PCR, Lourenço RA. Cross-cultural Adaptation of the “Functional Activities Questionnaire – FAQ” for use in Brazil. Dement Neuropsychol 2011; 5(4):322-327. https://doi.org/10.1590/s1980-57642011dn05040010
