Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 25/09/2025
Atualização: 23/04/26
Os instrumentos observacionais para avaliação da dor são escalas desenvolvidas para identificar sinais de dor em pacientes com dificuldade de comunicação, especialmente idosos com comprometimento cognitivo. Esses instrumentos baseiam-se na observação sistemática de manifestações comportamentais, expressões faciais, vocalizações e alterações fisiológicas, permitindo uma avaliação mais precisa quando o autorrelato é limitado ou impossível.
Importância da avaliação da dor em idosos com comprometimento cognitivo
A dor é frequentemente subdiagnosticada em idosos com demência devido às dificuldades de comunicação decorrentes do comprometimento cognitivo. Alterações na linguagem, memória e capacidade de julgamento dificultam a descrição de aspectos fundamentais da experiência dolorosa, como localização, intensidade, duração, fatores desencadeantes e fatores de alívio.
Entretanto, mesmo diante dessas limitações, o autorrelato deve ser sempre tentado. Sempre que possível, recomenda-se utilizar instrumentos de autorrelato, unidimensionais ou multidimensionais, adaptando a comunicação ao nível de compreensão do paciente. Entre as escalas mais utilizadas estão:
– Escala Numérica de Dor
– Escala Verbal
– Escala Facial de Dor
– Escala Visual Analógica (EVA)
– Geriatric Pain Measure (GPM)
É importante destacar que a ausência de resposta não deve ser interpretada automaticamente como ausência de dor.
Consequências da dor não reconhecida
A identificação inadequada da dor em pacientes com demência está associada à menor utilização de tratamento analgésico. Como consequência, podem ocorrer diversas complicações clínicas, incluindo:
– Transtornos de humor
– Transtornos de ansiedade
– Piora da qualidade do sono
– Redução da participação em programas de reabilitação
– Alterações nutricionais
– Declínio da funcionalidade
– Aumento do risco de hospitalizações
– Maior probabilidade de institucionalização
Nesse contexto, a capacitação de profissionais de saúde, cuidadores e familiares é essencial para reconhecer precocemente sinais sugestivos de dor.
Quando utilizar instrumentos observacionais?
Quando o paciente apresenta limitações importantes na comunicação verbal, a avaliação da dor deve integrar diferentes fontes de informação, incluindo:
– Observação clínica
– Relato de familiares ou cuidadores
– Exame físico
– Histórico clínico
– Resposta ao tratamento analgésico
Nessas situações, os instrumentos observacionais tornam-se ferramentas fundamentais tanto para identificar quanto para monitorar a evolução da dor. Recomenda-se sua aplicação de forma periódica, durante mudanças comportamentais sugestivas de dor ou após intervenções analgésicas.
Principais sinais observacionais de dor
Durante a avaliação, o profissional deve estar atento a manifestações como:
– Expressões faciais de sofrimento
– Vocalizações (gemidos, gritos ou choro)
– Postura antálgica
– Rigidez corporal
– Agitação ou irritabilidade
– Resistência aos cuidados
– Alterações do padrão de sono
– Diminuição do apetite
– Isolamento social
– Alterações autonômicas, como aumento da frequência cardíaca, frequência respiratória e sudorese
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma a presença de dor. A interpretação deve sempre considerar o contexto clínico e a avaliação global do paciente.
Principais instrumentos observacionais
Atualmente, existem mais de 20 instrumentos desenvolvidos especificamente para avaliar a dor em idosos com demência. Os mais estudados e utilizados incluem:
– Pain Assessment in Advanced Dementia (PAINAD)
– Pain Assessment Checklist for Seniors with Limited Ability to Communicate (PACSLAC)
– Abbey Pain Scale
– Non-Communicative Patient’s Pain Assessment Instrument (NOPPAIN)
– DOLOPLUS2.
A escolha do instrumento deve considerar o ambiente de aplicação, o perfil do paciente e a familiaridade da equipe com a escala utilizada.
Perguntas frequentes:
Qual é o melhor instrumento para avaliar a dor em idosos com demência?
Não existe um instrumento considerado superior em todas as situações. Entre os mais utilizados estão PAINAD, PACSLAC, Abbey Pain Scale, NOPPAIN e DOLOPLUS-2. A escolha depende do contexto clínico e da experiência da equipe.
O paciente com demência consegue relatar dor?
Sim. Mesmo em casos de demência moderada ou avançada, recomenda-se sempre tentar obter o autorrelato utilizando linguagem simples e escalas adaptadas.
Quando utilizar uma escala observacional?
As escalas observacionais são indicadas quando o paciente apresenta limitação importante para comunicar a presença ou as características da dor, dificultando o uso exclusivo do autorrelato.
Os sinais comportamentais confirmam a presença de dor?
Não. Esses sinais aumentam a suspeita clínica, mas devem ser interpretados em conjunto com a história clínica, o exame físico e outras informações disponíveis.
Sugestões de leitura:
El-Tallawy SN, Ahmed RS, Shabi SM, Al-Zabidi FZ, Zaidi ARZ, Varrassi G et al. The challenges of pain assessment in geriatric patients with dementia: a review. Cureus 2023; 15(11): e49639. https://doi.org/10.7759/cureus.49639
Hadjistavropoulos T, Herr K, Prkachin KM, Craig KD, Gibson SJ, Lukas A, et al. Pain assessment in elderly adults with dementia. Lancet Neurol 2014; 13(12): 1216-27. https://doi.org/10.1016/s1474-4422(14)70103-6
Herr K. Pain Assessment Strategies in Older Patients. J Pain 2011; 12 (3 suppl 1):S3-S13. https://doi.org/10.1016/j.jpain.2010.11.011

