Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 17/10/2024
Atualização: 06/04/2026
A Escala de Karnofsky (Karnofsky Performance Scale – KPS) é um instrumento utilizado para avaliar a capacidade funcional de pacientes, principalmente em oncologia e cuidados paliativos. Sua pontuação varia de 0% a 100%, sendo que escores mais elevados indicam maior independência funcional, enquanto valores mais baixos refletem maior dependência e pior prognóstico clínico.
História da Escala de Karnofsky
A Escala de Karnofsky foi proposta no final da década de 1940 por David A. Karnofsky e Joseph H. Burchenal. O instrumento foi apresentado no capítulo The Clinical Evaluation of Chemotherapeutic Agents in Cancer, publicado no livro Evaluation of Chemotherapeutic Agents.
A escala surgiu a partir de um simpósio realizado em Nova Iorque, em 1948, que apresentou os resultados do tratamento com nitrogênio mostarda em pacientes com câncer de pulmão. Na época, os pesquisadores observaram que avaliar apenas a resposta tumoral era insuficiente para mensurar os benefícios do tratamento.
Por esse motivo, passaram a considerar três aspectos fundamentais:
– Resposta objetiva ao tratamento, como redução do tumor, derrame pleural e metástases
– Resposta subjetiva, incluindo bem-estar, energia, apetite, dor, tosse e dispneia
– Status de desempenho (performance status), representado pela capacidade funcional do paciente.
Esse trabalho representou um marco na valorização da avaliação funcional como parte essencial do cuidado de pacientes com doenças oncológicas.
Como funciona a Escala de Karnofsky?
A KPS classifica a capacidade funcional em 11 níveis, com pontuação entre 0% e 100%.
– 100%: paciente totalmente independente
– 0%: óbito
De forma geral, quanto menor a pontuação, maior é o grau de dependência para realizar atividades do dia a dia e pior tende a ser o prognóstico clínico.
Para que serve a Escala de Karnofsky?
Ao longo dos anos, a Escala de Karnofsky demonstrou utilidade não apenas em pacientes com câncer, mas também em indivíduos com outras doenças crônicas e condições avançadas.
Entre suas principais aplicações estão:
– Avaliação prognóstica
– Monitoramento da evolução clínica
– Apoio à tomada de decisão terapêutica
– Indicação e acompanhamento em cuidados paliativos.
Em pacientes com doenças avançadas, especialmente aqueles em cuidados paliativos, a KPS auxilia na estimativa de sobrevida. Entretanto, em pacientes oncológicos, o prognóstico também depende de fatores como localização do tumor, tipo histológico, estadiamento e resposta ao tratamento.
De maneira geral, pacientes com KPS inferior a 50% apresentam sobrevida estimada inferior a oito semanas, embora essa estimativa deva sempre ser interpretada em conjunto com o contexto clínico.
Escala de Karnofsky na pessoa idosa
Na população idosa, a Escala de Karnofsky apresenta boa correlação com outros instrumentos utilizados para avaliar funcionalidade, como:
– Índice de Katz
– Escala de Lawton-Brody
Além disso, é útil para prever: risco de hospitalização, mortalidade, institucionalização. Sua aplicação é especialmente relevante dentro da avaliação geriátrica ampla.
Vantagens da Escala de Karnofsky
Dentre as vantagens da KPS estão:
– Aplicação simples e rápida
– Fácil interpretação
– Boa utilidade prognóstica
– Ampla utilização na prática clínica e em pesquisas
– Possibilidade de acompanhar a evolução funcional ao longo do tempo.
Limitações
Entretanto, deve-se destacar algumas limitações:
– Avaliação subjetiva entre observadores
– Foco predominante em aspectos físicos
– Não inclui adequadamente fatores psicológicos, sociais e cognitibos
– Limitações na avaliação de dor e qualidade de vida
Por esse motivo, recomenda-se que a KPS seja utilizada em conjunto com outros instrumentos de avaliação clínica e funcional, especialmente na população idosa.
Versões modificadas da Escala de Karnofsky
Existem adaptações da Escala de Karnofsky, como a Thorne-modified Karnofsky (TKPS) e a Australia-modified Karnofsky (AKPS), que visam facilitar o uso em diferentes contextos. Contudo, elas ainda são pouco exploradas na literatura em língua portuguesa.

Interpretação*:
A escala de Karnofsky é autoexplicativa. Péus et al. trazem uma forma interessante de interpretação para facilitar o uso do instrumento a partir das três condições do paciente:
Condição A: paciente apresenta ou não sintomas leves a moderados (dor, alteração de peso, redução de energia)
Condição B: paciente necessita ajuda para atividades básicas e/ou instrumentais (higiene, alimentação, vestimenta etc)
Condição C: paciente necessita passar maior parte do tempo desperto acamado (acima de 50%)
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Perguntas frequentes:
O que é a Escala de Karnofsky?
É um instrumento utilizado para avaliar a capacidade funcional de pacientes por meio de uma pontuação entre 0% e 100%, auxiliando na avaliação prognóstica e no planejamento terapêutico.
Quem pode utilizar a Escala de Karnofsky?
A escala é amplamente utilizada por médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde envolvidos no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, oncológicas ou em cuidados paliativos.
Qual é a diferença entre a Escala de Karnofsky e o ECOG?
Ambas avaliam o desempenho funcional. Entretanto, a Escala de Karnofsky utiliza uma pontuação de 0% a 100%, enquanto a escala ECOG classifica o desempenho funcional em categorias de 0 a 5.
Sugestões de leitura:
Abernethy AP, Shelby-James T, Fazekas BS, Woods D, Currow DC. The Australia-modified Karnofsky Performance Status (AKPS) scale: a revised scale for contemporary palliative care clinical practice. BMC Palliat Care 2005; 4:7.
https://doi.org/10.1186/1472-684x-4-7
Crooks V, Waller S, Smith T, Hahn TJ. The use of the Karnofsky Performance Scale in determining outcomes and risk in geriatric outpatients. J Gerontol 1991; 46(4): M139-44. https://doi.org/10.1093/geronj/46.4.m139.
Karnofsky DA, Burchenal JH. The clinical evaluation of chemotherapeutic agents in cancer, in Macleod CM: Evaluation of Chemotherapeutic Agents. New York, Columbia, University Press, 1949, p. 199-205.
Péus D, Newcomb N, Hofer S. Appraisal of the Karnofsky Performance Status and proposal of a simple algorithmic system for its evaluation. BMC Med Inform Decis Mak 2013; 13:72. https://doi.org/10.1186/1472-6947-13-72.
Schag CC, Heinrich RL, Ganz PA. Karnofsky Performance Status Revisited: reliability, validity and guidelines. J Clin Oncol 1984; 2(3): 187-93. https://doi.org/10.1200/JCO.1984.2.3.187.
Timmermann C. ‘Just give me the best quality of life questionnaire: the Karnofsky scale and the history of quality of life measurements in cancer trials. Chronic Illn 2013; 9(3): 179-90. https://doi.org/10.1177/1742395312466903.
Yates JW, Chalmer B, McKegney FP. Evaluation of patients with advanced cancer using the Karnofsky Performance Status. Cancer 1980; 45(8): 2220-4. https://doi.org/10.1002/1097-0142(19800415)45:8<2220::aid-cncr2820450835>3.0.co;2-q

