Índice de Comorbidades de Charlson
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 29/04/2025
Atualização: 19/05/2026
O Índice de Comorbidades de Charlson (ICC) é uma ferramenta amplamente utilizada para estimar o risco de mortalidade e avaliar o impacto da multimorbidade na sobrevida dos pacientes. Desenvolvido em 1987 pela Dra. Mary E. Charlson e colaboradores, o índice se tornou uma das escalas prognósticas mais utilizadas na prática clínica e em pesquisas científicas.
Dessa forma, o principal objetivo do Índice de Comorbidades de Charlson é quantificar o peso das doenças associadas e prever desfechos clínicos, especialmente mortalidade em curto e longo prazo.
O estudo original do ICC foi desenvolvido a partir de uma coorte de pacientes internados em enfermarias de clínica médica. Na pesquisa, foram consideradas todas as comorbidades presentes, exceto condições já resolvidas, como infecções antigas ou cirurgias prévias sem repercussão clínica atual.
Cada comorbidade foi classificada conforme sua presença e gravidade. Logo, os pesquisadores observaram que pacientes com maior número de doenças associadas apresentavam menor sobrevida ao longo de um ano.
Posteriormente, uma segunda coorte composta por mulheres com câncer de mama foi utilizada para validar o índice em um acompanhamento de até 10 anos. Então, os resultados confirmaram a associação entre comorbidades e redução da sobrevida. Além disso, o estudo identificou um fator importante: o impacto da idade no prognóstico clínico.
Durante o processo de validação do índice, observou-se que a idade influenciava significativamente a mortalidade. Dessa forma, foi criado um ajuste por faixa etária. Então, no ICC ajustado por idade, acrescenta-se um ponto ao escore para cada década de vida acima dos 40 anos. Esse modelo foi posteriormente confirmado em estudos com pacientes submetidos a cirurgias eletivas, reforçando a utilidade do índice em diferentes contextos clínicos.
O ICC considera 17 condições clínicas, cada uma com um peso específico. Assim, o escore final corresponde à soma dos pontos atribuídos às comorbidades identificadas no paciente. Logo, quanto maior o escore, maior o risco de mortalidade e pior o prognóstico clínico.
O instrumento pode ser utilizado tanto na prática assistencial quanto em pesquisas clínicas, especialmente na estratificação de risco e comparação entre grupos de pacientes. Sendo assim, já foi aplicado em diversas condições clínicas e cenários assistenciais: oncologia, acidente vascular cerebral (AVC), síndrome coronariana aguda, arritmias cardíacas (incluindo fibrilação atrial), insuficiência cardíaca, COVID-19, déficit cognitivo, fratura de quadril, traumas, contextos cirúrgicos.
Além disso, índice também foi validado em diferentes ambientes de atendimento, incluindo: unidades de terapia intensiva (UTI), prontos-socorros, enfermarias hospitalares, centros cirúrgicos, centros de reabilitação.
Contudo, ao longo dos anos, o ICC passou por diferentes adaptações metodológicas. Assim, uma das mais importantes foi sua integração ao Código Internacional de Doenças (CID), permitindo o uso automatizado em bancos de dados e estudos epidemiológicos. Além disso, diferentes fontes de informação já foram utilizadas para aplicação do índice, como: entrevistas com pacientes, prontuários médicos, resumos de alta hospitalar, listas de problemas clínicos.
Então essas adaptações ampliaram a utilização do Índice de Charlson em pesquisas populacionais e sistemas de saúde.
Entretanto, o Índice de Comorbidade de Charlson apresenta limitações importantes. Assim, a principal crítica refere-se à necessidade de atualização dos pesos atribuídos às comorbidades. Já que, desde a criação do índice, ocorreram avanços significativos no diagnóstico e tratamento de diversas doenças. Condições como HIV/AIDS e neoplasias, por exemplo, apresentam atualmente prognósticos muito diferentes daqueles observados na década de 1980. Por isso, muitos pesquisadores defendem a recalibração periódica do ICC para manter sua precisão prognóstica na prática clínica contemporânea.
1. Infarto do miocárdio:
Pacientes com hospitalização – atual ou passada – com alteração eletrocardiográfica e/ou enzimática compatível com infarto do miocárdio.
2. Insuficiência cardíaca:
Pacientes com história de dispnéia aos esforços, dispnéia paroxística noturna e que apresentaram resposta sintomática ou no exame físico ao tratamento com diuréticos, digitálicos ou redutores da pós-carga.
3. Doença vascular periférica:
Pacientes com claudicação intermitente ou que foram submetidos a by-pass por insuficiência arterial, aqueles com gangrena ou insuficiência arterial aguda e aqueles com aneurismas de aorta torácica e abdominal não tratados, 06cm ou mais.
4. Doença cerebrovascular:
Pacientes com história de AVC ou AIT, oclusões vasculares da retina e todas doenças cerebrovasculares. Se sequela hemiplégica, marcar apenas hemiplegia.
5. Demência:
Pacientes com déficit cognitivo crônico moderado a grave resultando em perda funcional e de qualquer etiologia.
6. Doença pulmonar crônica:
Pacientes com doenças crônicas das vias aéreas inferiores: bronquite, enfisema, asma, bronquiectasia e doenças causadas por agentes externos que apresentem sintomas como dispneia ou tosse, durante atividade leve a moderada.
7. Doença do tecido conjuntivo:
Pacientes portadores de Lúpus eritematoso sistêmico, Doença Mista do Tecido Conjuntivo, Polimiosite, Polimialgia Reumática, sarcoidose, síndrome de Sjögren ou qualquer vasculite sistêmica.
8. Doença ulcerosa péptica:
Pacientes com passado de tratamento por úlcera péptica, incluindo aqueles com sangramento prévio pela úlcera.
9. Doença Hepática:
Leve – pacientes com cirrose, mas sem hipertensão porta ou hepatite aguda (1 ponto); Moderada a grave – pacientes com cirrose e hipertensão porta e/ou história de sangramento por varizes, presença de ascite, icterícia crônica, transplantados (3 pontos)
10. Diabetes:
Sem complicações – pacientes tratados com insulina ou antidiabéticos orais, mas não os controlados apenas com dieta, não inclui diabetes gestacional (1 ponto); Lesões de órgãos-alvo – neuropatia, nefropatia, retinopatia, hospitalização prévia por cetoacidose, coma hiperosmolar (2 pontos)
11. Hemiplegia:
Pacientes com hemiplegia ou paraplegia, tenha ocorrido por doença cerebrovascular ou outras causas.
12. Doença renal severa ou moderada:
Pacientes com creatinina >3 mg/dl ou em diálise ou transplantados ou em uremia.
13. Tumores sólidos:
(incluindo mama, cólon, pulmão, próstata e outras variedades de tumor). Sem metástases (2 pontos), Com metástases (6 pontos)
14. Leucemia/Policitemia Vera:
Pacientes com LMA, LMC, LLA, LLC ou Policitemia Vera.
15. Linfoma/mieloma:
Pacientes com Hodgkin, linfosarcoma, macroglobulinemia de Waldenstrom, mieloma e outros linfomas.
16. Pacientes com HIV/AIDS:
Pacientes com diagnóstico definitivo ou provável.
17. Idade:
Escolha a faixa etária do paciente:
Interpretação*:
Os estudos originais do Índice de Comorbidade de Charlson avaliaram a sobrevida em dez anos do indivíduo, a partir das seguintes pontuações:
Estimativa de sobrevida em dez anos
Zero ponto: 98%
Um ponto: 96%
Dois pontos: 90%
Três pontos: 77%
Quatros pontos: 53%
Cinco pontos: 21%
Seis pontos: 2%
Sete ou mais pontos: 0%
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Então, devem ser interpretados sob a luz de julgamento clínico
Referências:
Charlson ME, Pompei P, Ales KL, MacKenzie CR. A new method of classifying prognostic comorbidity in longitudinal studies: development and validation. J Chronic Dis 1987; 40(5): 373-83. https://doi.org/10.1016/0021-9681(87)90171-8
Charlson ME, Szatrowski TP, Peterson J, Gold J. Validation of a combined comorbidity index. J Clin Epidemiol 1994; 47(11): 1245-51. doi: 10.1016/0895-4356(94)90129-5. https://doi.org/10.1016/0895-4356(94)90129-5
Charlson ME, Carrozzino D, Guidi J, Patierno C. Charlson Comorbidity Index: A critical review of clinimetric properties. Psychother Psychosom 2022; 91(1): 8-35. https://doi.org/10.1159/000521288