CHA2DS2-VA
Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 16/06/2025
Atualização: 05/02/2026
Pacientes com fibrilação atrial (FA) apresentam risco aumentado de fenômenos cardioembólicos, sendo o acidente vascular cerebral (AVC) a complicação mais temida. Para a prevenção desses eventos, é essencial identificar corretamente os indivíduos com maior risco e, a partir disso, indicar a terapia anticoagulante como estratégia de profilaxia.
A estimativa do risco de AVC pode variar conforme as características da população avaliada. De modo geral, considera-se:
– Baixo risco: incidência < 1% ao ano
– Risco intermediário: entre 1% e 2% ao ano
– Alto risco: > 2% ao ano
A anticoagulação é fortemente recomendada para pacientes de alto risco e pode ser considerada nos casos intermediários, de acordo com julgamento clínico individualizado.
O escore CHADS₂
Historicamente, a estratificação do risco tromboembólico em pacientes com FA era realizada por meio do escore CHADS₂, proposto por Gage et al. em 2001. O acrônimo representa:
– C: Insuficiência cardíaca
– H: Hipertensão arterial sistêmica
– A: Idade ≥ 75 anos
– D: Diabetes mellitus
– S: AVC ou AIT prévios
Cada critério pontuava 1 ponto, exceto o AVC/AIT, que valia 2 pontos. A anticoagulação era indicada a partir de 2 pontos ou mais. Apesar de seu uso inicial, o CHADS₂ apresentava limitações importantes, sobretudo na identificação de pacientes classificados como baixo risco (escore 0), que ainda apresentavam taxas de AVC entre 1% e 2% ao ano.
O escore CHA2DS2-VASc
Com o objetivo de aprimorar a sensibilidade do modelo, Lip et al. propuseram em 2010 o CHA2DS2-VASc, ampliando os critérios avaliados:
– C: Insuficiência cardíaca congestiva (1 ponto)
– H: Hipertensão arterial sistêmica (1 ponto)
– A2: Idade ≥ 75 anos (2 pontos)
– D: Diabetes mellitus (1 ponto)
– S2: AVC, AIT ou tromboembolismo prévio (2 pontos)
– V: Doença vascular (1 ponto)
– A: Idade entre 65 e 74 anos (1 ponto)
– Sc: Sexo feminino (1 ponto)
A principal vantagem do CHA2DS2-VASc na fibrilação atrial foi a melhor identificação de pacientes verdadeiramente de baixo risco, que poderiam permanecer sem anticoagulação. A classificação de risco passou a considerar baixo risco os homens com escore 0 e as mulheres com escore 01. Já os pacientes com risco intermediário apresentavam 01 ponto (homens) ou 02 pontos (mulheres), e aqueles com risco elevado somavam 02 ou mais pontos (homens) e 03 ou mais (mulheres).
Entretanto, é discutível se o sexo feminino realmente configura um fator de risco independente para fenômenos tromboembólicos. Há indícios de que o risco observado em mulheres possa estar mais relacionado à idade avançada do que ao gênero em si. Além disso, estudos apontaram menor taxa de prescrição de anticoagulantes entre mulheres, o que também pode ter contribuído para o aumento do risco de eventos, reforçando o viés de gênero presente em dados históricos.
O escore CHA2DS2-VA
Diante dessas limitações, surgiu o CHA2DS2-VA, que exclui o critério de sexo. Essa modificação trouxe benefícios relevantes como: simplificação da tomada de decisão clínica, ponto de corte único, independentemente do gênero, inclusão de pessoas transgênero, não-binárias e em terapia hormonal, redução do risco de erro de interpretação.
Essa nova abordagem foi endossada pelo guideline europeu de fibrilação atrial (ESC 2024), que reconhece o CHA2DS2-VA como alternativa válida e prática.
Embora os escores sejam ferramentas essenciais na prática clínica, sua capacidade preditiva é moderada. Cada fator possui impacto diferente no risco real, mesmo quando recebe a mesma pontuação.
Além disso, o risco tromboembólico aumenta progressivamente conforme a pontuação total, e não apenas ao ultrapassar pontos de corte. Por isso, a decisão sobre anticoagulação deve sempre considerar o contexto clínico global e ser acompanhada da avaliação do risco de sangramento, utilizando instrumentos como o HAS-BLED.
CHA2DS2-VA
Interpretação*:
O CHA2DS2-VA avaliar o risco de fenômenos tromboembólicos, em um ano, relacionados à FA. O guideline europeu de FA (ESC 2024) sugere a seguinte recomendação:
Escore 0 ponto (risco baixo): sem recomendação de anticoagulação;
Escore 01 ponto (risco intermediário): considerar anticoagulação; avaliar caso a caso, baseado em julgamento clínico;
Escore 02 ou mais pontos (risco elevado): anticoagulação recomendada, considerar risco de sangramento.
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
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