Por: Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 31/07/2025
Atualização: 16/04/2025
A dor é uma condição frequente em idoso e representa um dos principais desafios no cuidado. O processo de envelhecimento está associado ao aumento da prevalência de doenças crônicas, multimorbidade e alterações funcionais, fatores que podem contribuir para maior ocorrência de dor persistente.
Entretanto, é fundamental destacar que a dor não deve ser considerada uma consequência normal do envelhecimento. Embora seja mais frequente nessa população, ela sempre exige investigação clínica, avaliação adequada e tratamento individualizado.
A presença de quadros persistentes pode comprometer a funcionalidade, reduzir a autonomia, favorecer a fragilidade e impactar diretamente a qualidade de vida da pessoa idosa.
A experiência multidimensional da dor
Trata-se de uma experiência subjetiva e individual. Sua percepção envolve a interação entre estímulos físicos, emoções, pensamentos, contexto social e experiências anteriores.
Entre os principais componentes envolvidos estão:
– Aspectos sensoriais: intensidade, localização, duração e características da dor
– Aspectos afetivos: sofrimento emocional, medo e ansiedade associados ao sintoma
– Aspectos funcionais: impacto sobre mobilidade, independência e atividades diárias
– Aspectos sociais: influência da família, ambiente e participação social.
Além disso, fatores culturais e espirituais podem modificar a forma como o idoso interpreta e comunica a queixa.
Em alguns contextos, existe a percepção equivocada de que determinados níveis de dor fazem parte do envelhecimento. Essa interpretação pode levar à subvalorização do sintoma pelo próprio paciente, familiares ou profissionais de saúde, atrasando o diagnóstico e o tratamento.
Principais causas de dor crônica em idosos
A etiologia da dor crônica em idosos geralmente é multifatorial. Entre as causas mais frequentes estão:
– Doenças osteomusculares: osteoartrite, lombalgia, fratura prévias, síndromes dolorosas etc
– Neuropatias: neuropatia diabética, lesões nervosas periféricas, compressões radiculares etc
– Vasculopatias periféricas: claudicação intermitente, síndrome pós-trombótica etc
Além disso, a dor relacionada a neoplasias é frequente, devido à maior incidência de câncer nessa faixa etária. Nestes casos é importante considerar tipo de tumor, local, tamanho e aspecto funcional da lesão.
Outro ponto relevante é a presença de alterações cognitivas. Já que esses déficits podem dificultar a comunicação, prejudicando a avaliação clínica e a escolha do tratamento adequado.
Classificação da dor
A sua classificação é fundamental para um manejo adequado. De forma geral, ela pode ser dividida em três grupos principais:
– Dor nociceptiva: ocorre em resposta à estimulação de receptores periféricos na pele ou em tecidos profundos. Geralmente é bem localizada e tende a regredir com a remoção do agente causador. No entanto, processos inflamatórios podem favorecer sua cronificação.
– Dor neuropática: resulta de lesão ou disfunção do sistema nervoso somatossensitivo, central ou periférico. É frequentemente descrita como sensação de queimação, formigamento, choque elétrico ou ardência.
– Dor nociplástica: caracteriza-se por alterações na modulação do sintoma doloroso no sistema nervoso central, sem evidência de dano tecidual ou lesão neural identificável. Os sintomas costumam ser difusos, multifocais e de localização imprecisa, com associação frequente a fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas e humor.
Impactos da dor crônica na pessoa idosa
A dor persistente pode causar consequências importantes, incluindo:
– Redução da capacidade funcional
– Limitação para atividades físicas
– Isolamento social
– Maior risco de institucionalização
– Agravamento de ansiedade e transtornos de humor
Além disso, pacientes com quadros crônicos tendem a utilizar mais medicamentos. Isso aumenta o risco de:
– Efeitos adversos
– Interações medicamentosas
– Polifarmácia
Ademais, outro ponto de atenção é o uso inadequado de analgésicos, especialmente opioides, que pode levar à dependência e a complicações clínicas.
Contudo, apesar da alta prevalência, a dor crônica em idosos ainda é frequentemente subtratada. Muitos pacientes recebem menos encaminhamentos para abordagens multiprofissionais, o que contribui para uma assistência inadequada e piora significativa da qualidade de vida.

Como avaliar a dor em idosos?
A avaliação deve ser sistemática e individualizada. Os principais aspectos avaliados incluem:
– Localização
– Intensidade
– Características
– Fatores desencadeantes
– Fatores de alívio
– Impacto nas atividades diária
– Alterações emocionais associadas
A avaliação em idosos exige sensibilidade clínica. Nem todos os pacientes utilizam diretamente a palavra “dor”, sendo comum o uso de termos como:
– Incômodo
– Desconforto
– Queimação
– Peso
– Aperto
Por isso, é fundamental adaptar a comunicação durante a anamnese.
Além disso, sinais clínicos como taquicardia, alterações de pressão arterial, gemência ou posturas antálgicas devem ser observados, pois a dor pode estar presente mesmo na ausência de causas físicas evidentes. Esses sinais são especialmente importantes quando não há uma causa física evidente ou quando o paciente apresenta limitações na comunicação.
Escalas e instrumentos para avaliação da dor em idosos
A utilização de instrumentos padronizados é essencial para qualificar a avaliação do quadro em idosos e melhorar a tomada de decisão clínica. Os instrumentos unidimensionais avaliam a dor por si só com grande foco em identificar a intensidade. Pode ser divididos como de autorrelato ou observacionais.
Dentre os de autorrelato destacam-se:
– Escala numérica
– Escala visual-analógica (EVA)
– Escala facial de dor
– Escala verbal
Já os instrumentos observacionais são úteis em pacientes com dificuldades de comunicação, especialmente em casos de déficit cognitivo:
– PAINAD (Pain Assessment in Advanced Dementia)
– PACSLAC (Pain Assessment Checklist for Seniors with Limited Ability to Communicate)
Há ainda instrumentos multidimensionais que contemplam outros aspectos do fenômeno doloroso, além da intensidade, como os físicos, os emocionais, os sociais, os psicológicos e os econômicos. Dentre estes instrumentos há o Geriatric Pain Measure (GPM), voltado para a população geriátrica.
Além das escala gerais, há ainda as voltadas para condições específicas, como dor lombar e osteoartrite. Além dos instrumentos para diferenciação entre a dor neuropática e a nociceptiva, como o DN4.
Manejo da dor crônica em idosos
O tratamento da dor crônica deve ser individualizado e, sempre que possível, multiprofissional.
A abordagem pode envolver:
– Médico geriatra
– Médico da dor
– Fisioterapeuta
– Terapeuta ocupacional
– Psicólogo
– Enfermeiro
– Outros profissionais conforme necessidade.
O objetivo do tratamento não é apenas reduzir a intensidade, mas preservar:
– Funcionalidade
– Autonomia
– Participação social
– Qualidade de vida.
Perguntas frequentes:
Dor é uma consequência normal do envelhecimento?
Não. Embora seja mais frequente em idosos devido ao aumento de doenças crônicas, ela não deve ser considerada parte normal do envelhecimento.
Qual a diferença entre a dor neuropática e a nociceptiva?
A nociceptiva está relacionada à ativação dos receptores da dor por lesões ou inflamações nos tecidos. Já a neuropática ocorre devido a alterações ou lesões no sistema nervoso.
Como avaliar dor em idosos com demência?
Quando o paciente apresenta dificuldade de comunicação, devem ser utilizados instrumentos observacionais, como PAINAD e PACSLAC, além da observação de alterações comportamentais.
Quais escalas podem ser usadas para avaliar dor em idosos?
As principais incluem Escala Numérica, Escala Visual Analógica, Escala Facial, PAINAD, PACSLAC e Geriatric Pain Measure.
Sugestões de leitura:
Aguiar DS, Pinheiro IM. Multidimensional instruments validated in Brazil for pain evaluation in the elderly: narrative review. BrJP [Internet[ 2019; 2(3): 289-92. http://doi.org/10.5935/2595-0118.20190051.
Barcellos DK, Santos FC. Dor no idoso. 1a. edição. Rio de Janeiro: DOC; 2023, 174p.
McLennan AIG, Winters EM, Gagnon MM, Hadjistavropoulos T. The psychometric assessment of the older adult in pain: A systematic review of assessment instruments. Clin Psychol Rev 2024; 114: 102513. http://doi.org/10.1016/j.cpr.2024.102513
Schofield P. The assessment of pain in older people: UK national guidelines. Age Ageing. 2018 Mar 1;47(Suppl 1):i1–i22. https://doi.org/10.1093/ageing/afx192
Schofield P, Abdulla A. Pain assessment in the older population: what the literature says. Age Ageing 2018; 47(3): 324-327. http://doi.org/10.1093/ageing/afy018

