Instrumentos observacionais para dor
A avaliação da dor em idosos depende, primordialmente, da capacidade do indivíduo de se comunicar e relatar aspectos como localização, intensidade, fatores atenuantes, desencadeantes e precipitantes. Para isso, é fundamental que a capacidade de comunicação esteja preservada. No entanto, a linguagem é um dos domínios cognitivos frequentemente afetados em pacientes com demência, o que pode dificultar ou até impedir o relato espontâneo da dor. Esse comprometimento é ainda mais acentuado quando há prejuízos de memória e de capacidade de julgamento.
A não identificação adequada da dor em pacientes com demência resulta, muitas vezes, em menor oferta de tratamento analgésico, o que pode levar a diversas consequências negativas, como depressão, ansiedade, redução do engajamento em atividades de reabilitação, piora da qualidade do sono, alterações no padrão alimentar, além de aumento no risco de hospitalizações e institucionalizações. Diante desse cenário, torna-se essencial o treinamento de profissionais da saúde, cuidadores e familiares para a identificação precoce de sinais de dor em idosos com comprometimento cognitivo.
Mesmo em casos de demência moderada a avançada, é recomendável sempre tentar a aplicação de instrumentos de autorrelato da dor, sejam eles unidimensionais ou multidimensionais. Podem ser utilizadas escalas como a numérica, verbal, de faces ou visual-analógica. É importante que essa investigação seja realizada de maneira clara, simples e adaptada à capacidade de compreensão do paciente, uma vez que a ausência de resposta não deve ser interpretada automaticamente como ausência de dor.
Quando o paciente apresenta limitações significativas de comunicação, a avaliação da dor deve se basear em múltiplas fontes de informação e exigir alta suspeição clínica e julgamento criterioso por parte do profissional. Nesses casos, o uso de instrumentos observacionais torna-se fundamental, pois facilita tanto a identificação quanto o monitoramento do quadro doloroso. Esses instrumentos podem ser aplicados regularmente, em situações de mudanças comportamentais sugestivas de dor ou após intervenções analgésicas. É necessário estar atento a manifestações como alterações autonômicas (sudorese, frequência cardíaca e respiratória), postura, expressões faciais, vocalizações, mudanças de comportamento, alterações de rotina e do estado cognitivo.
Atualmente, estima-se a existência de mais de 20 instrumentos específicos para avaliação da dor em pacientes com demência. Entre os mais citados na literatura científica, destacam-se: Pain Assessment in Advanced Dementia (PAINAD), Pain Assessment Checklist for Seniors with Limited Ability to Communicate (PACSLAC), Abbey Pain Scale, Non-Communicative Patient’s Pain Assessment Instrument (NOPPAIN) e DOLOPLUS2.
Referências
El-Tallawy SN, Ahmed RS, Shabi SM, Al-Zabidi FZ, Zaidi ARZ, Varrassi G et al. The challenges of pain assessment in geriatric patients with dementia: a review. Cureus 2023; 15(11): e49639. doi: 10.7759/cureus.49639.
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Herr K. Pain Assessment Strategies in Older Patients. J Pain 2011; 12 (3 suppl 1):S3-S13. doi: 10.1016/j.jpain.2010.11.011.