Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 19/07/2024
Atualização: 14/05/2026
A Escala de Pfeffer, também conhecida como Pfeffer Functional Activities Questionnaire (PFAQ) ou Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer, é um instrumento utilizado na avaliação da funcionalidade de idosos. Logo, seu principal objetivo é identificar dificuldades nas atividades instrumentais de vida diária (AIVDs), especialmente em pessoas com suspeita de comprometimento cognitivo. Assim, é amplamente utilizada no contexto de avaliação geriátrica ampla (AGA).
Para que serve o Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer?
O principal objetivo da escala é avaliar alterações nas atividades instrumentais de vida diária, que representam tarefas necessárias para uma vida independente na comunidade.
Entre as funções avaliadas estão atividades como:
– Administrar dinheiro
– Organizar compromissos
– Preparar refeições
– Realizar compras
– Controlar medicamentos
– Utilizar meios de transporte
– Manter comunicação adequada
Assim, alterações nessas atividades podem indicar perda de autonomia e auxiliar na identificação de idosos com maior risco de comprometimento cognitivo.
História e desenvolvimento do PFAQ
A Escala de Pfeffer foi desenvolvida no início da década de 1980 por Pfeffer e colaboradores. O objetivo dos pesquisadores era criar um instrumento capaz de diferenciar idosos com quadros demenciais daqueles sem alterações cognitivas significativas, principalmente entre indivíduos residentes na comunidade.
Um dos diferenciais do instrumento foi reduzir a influência da escolaridade e de fatores socioeconômicos. Então, os autores priorizaram a avaliação da funcionalidade habitual do indivíduo, considerando sua capacidade de desempenhar atividades ao longo da vida.
Como funciona a Escala de Pfeffer?
O PFAQ avalia dez atividades relacionadas às atividades instrumentais de vida diária. A aplicação deve ser realizada com um informante confiável, como familiar, cuidador ou pessoa próxima ao idoso.
Essa recomendação é importante porque indivíduos com comprometimento cognitivo podem apresentar dificuldade para reconhecer ou relatar suas próprias limitações funcionais.
Cada item recebe uma pontuação de 0 a 3 pontos:
– 0 pontos: independente
– 1 ponto: dificuldade leve
– 2 pontos: necessidade de ajuda
– 3 pontos: dependência completa
O escore final varia de 0 a 30 pontos. Quanto maior a pontuação, maior o grau de dependência funcional.
Escala de Pfeffer e avaliação de demência
Embora a Escala de Pfeffer não seja um teste diagnóstico de demência, ela contribui para a investigação clínica quando associada a instrumentos cognitivos.
Em conjunto com testes como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), o PFAQ ajuda a avaliar se alterações cognitivas apresentam impacto real na independência do idoso.
Comparação entre Pfeffer e Lawton-Brody
Em estudo publicado em 1982, Pfeffer e colaboradores compararam o PFAQ com a escala de Lawton e Brody, outro instrumento utilizado na avaliação das AIVDs. Contudo, as resultados mostraram que o Questionário de Pfeffer apresentou melhor equilíbrio entre sensibilidade e especificidade:
– PFAQ: sensibilidade de 85% e especificidade de 81%
– Lawton & Brody: sensibilidade de 57% e especificidade de 92%
Segundo os autores, esse desempenho pode estar relacionado ao fato de o PFAQ avaliar atividades mais complexas do cotidiano, além de possuir maior variação na escala de classificação. Logo, quando associado a testes cognitivos, o instrumento pode ajudar a diferenciar o envelhecimento normal de quadros demenciais, reduzindo a ocorrência de falsos-positivos.
Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer
Preenche cheques, paga contas, verifica o saldo no talão de cheque, controla as necessidades financeiras:
Faz seguro (de vida, de carro, de casa), lida com negócios ou documentos, faz imposto de renda:
Compra roupas, utilidades domésticas e artigos de mercearia sozinho(a):
Joga baralho, xadrez, faz palavras cruzadas, trabalhos manuais ou tem algum outro passatempo:
Esquenta água, faz café ou chá, e desliga o fogão:
Prepara uma refeição completa (por ex.: carne, frango ou peixe, legumes, sobremesa):
Presta atenção, entende e comenta novelas, jornais ou revistas:
Acompanha os eventos atuais no bairro ou nacionalmente:
Lembra de compromissos, tarefas domésticas, eventos familiares (como aniversários) e medicações:
Sai do bairro, dirige, anda, pega ou troca de ônibus, trem ou avião:
Interpretação*:
Há diferentes propostas para pontos de corte utilizados na literatura, tanto para funcionalidade quanto para avaliação cognitiva.
Avaliação funcional (Pfeffer, 1982):
Dependência funcional: 06 pontos ou mais (Sensibilidade 85%, Especificidade 81%)
Avaliação cognitiva (Jacinto, 2008; Jacinto 2014):
Estudo em ambulatório geral na cidade de São Paulo com idosos de baixa escolaridade. Após triagem inicial com Mini-Mental ou short-IQCODE (pontos de corte usuais), o paciente foi considerado como rastreio positivo para demência se:
– PFAQ (corte: 03 pontos): Sensibilidade (S)84% e Especificidade (E) 94%;
– PFAQ (corte: 03 pontos) e fluência verbal semântica com animais (corte: 10 pontos) S 88,4% E 93,5%;
– PFAQ (corte: 03 pontos) e Teste do Desenho do Relógio (corte: 06 pontos – versão Sunderland) S 93% E 92,5%
Avaliação cognitiva (Aprahamian, 2011):
Analfabetos: 12 pontos S 85,3% E 76,5%
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a mudanças funcionais ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Contudo, devem ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Perguntas frequentes:
A Escala de Pfeffer avalia cognição?
Não diretamente. O instrumento avalia funcionalidade, mas as alterações funcionais podem estar relacionadas ao comprometimento cognitivo.
Quem deve responder o PFAQ?
O questionário deve ser respondido preferencialmente por alguém que conheça bem a rotina do idoso, como familiares ou cuidadores.
Pontuação alta na Escala de Pfeffer significa demência?
Não necessariamente. Uma pontuação elevada indica maior dependência funcional e deve ser interpretada junto com avaliação clínica, testes cognitivos e outros instrumentos geriátricos.
A Escala de Pfeffer substitui outros testes geriátricos?
Não. O PFAQ é complementar e deve fazer parte de uma avaliação multidimensional do idoso.
Sugestões de leitura:
Aprahamian I, Martinelli JE, Cecato J, Yassuda MS. Screening for Alzheimer’s disease among illiterate elderly: accuracy analysis for multiple instruments. J Alzheimers Dis 2011; 26(2):221-9. https://doi.org/10.3233/jad-2011-110125
Assis LO, Assis MG, Paula JJ, Malloy-Diniz LF. O questionário de atividades funcionais de Pfeffer: Revisão integrativa da literatura brasileira. Estud Interdiscipl envelhec 2015; 20(1):297-324. https://doi.org/10.22456/2316-2171.50189
Dutra MC, Ribeiro RS, Pinheiro SB, Melo GF, Carvalho GA. Accuracy and reliability of the Pfeffer Questionnaire for the Brazilian elderly population. Dement Neuropsychol 2015; 9(2): 176-83. https://doi.org/10.1590/1980-57642015DN92000012
Jacinto AF. Alterações cognitivas em pacientes idosos atendidos em ambulatório geral de clínica médica: Tese para obtenção do título de doutor em ciências. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2008. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5138/tde-12012009-172647/publico/Alessandrofjacinto.pdf
Jacinto AF, Brucki SMD, Porto CS, Martins MA, Citero VA, Nitrini R. Suggested instruments for General Practitioners in countries with low schooling to screen for cognitive impairment in the elderly. Int Psychogeriatr 2014; 26(7):1121-5. https://doi.org/10.1017/s1041610214000325
Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah Jr CH, Chance JM, Bates D, Detels S et al. A survey diagnostic tool for senile dementia. Am J Epidemiol 1981; 114(4):515-27. https://doi.org/10.1093/oxfordjournals.aje.a113217
Pfeffer RI, Kurosaki TT, Harrah Jr CH, Chance JM, Filos S. Measurement of functional activities in older adults in the community. J Gerontol 1982; 37(3): 323-9. https://doi.org/10.1093/geronj/37.3.323
Sanchez MAS, Correa PCR, Lourenço RA. Cross-cultural Adaptation of the “Functional Activities Questionnaire – FAQ” for use in Brazil. Dement Neuropsychol 2011; 5(4):322-327. https://doi.org/10.1590/s1980-57642011dn05040010

