Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 22/09/26
A Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) é um instrumento de rastreio cognitivo desenvolvido no Brasil para facilitar a avaliação de alterações cognitivas, especialmente em pessoas com baixa escolaridade ou analfabetismo.
A bateria utiliza principalmente figuras simples para avaliação da memória, reduzindo a dependência de leitura e escrita presente em alguns instrumentos cognitivos, como o Miniexame do estado mental (MEEM).
A BBRC foi desenvolvida pelo grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A proposta surgiu da necessidade de utilizar instrumentos mais adequados à população brasileira, na qual havia elevada frequência de baixa escolaridade. Contudo, posteriormente, comprovou-se que bateria também apresenta utilidade em pessoas com escolaridade média ou alta.
A BBRC é um instrumento de rastreio, e não deve ser utilizada isoladamente para estabelecer o diagnóstico de demência ou de outra doença neurológica. O resultado deve ser interpretado junto à história clínica, avaliação funcional (como índice de Katz ou Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer) , escolaridade, idade, condições sensoriais e outros dados da avaliação cognitiva.
Para que serve a BBRC?
A BBRC pode ser utilizada como parte do rastreio de alterações cognitivas, incluindo quadros associados a doenças neurodegenerativas. A literatura demonstra sua utilidade na avaliação de pessoas com diferentes níveis educacionais.
A bateria é particularmente conhecida pelo Teste de Memória de Figuras (TMF). Dessa forma, avalia a memória episódica por meio da apresentação e posterior evocação de 10 figuras, desenhadas em traço preto-e-branco. Tais figuras são apresentadas em diferentes momentos ao longo da bateria. Assim, a evocação tardia das figuras apresenta importante capacidade discriminatória para alterações cognitivas, sendo o componente com melhor precisão para o diagnóstico de demência em diferentes níveis educacionais.
Por que a BBRC é útil em pessoas com baixa escolaridade?
A escolaridade pode influenciar o desempenho em diversos testes cognitivos. Essa influência é particularmente relevante em instrumentos que dependem de leitura, escrita ou conhecimentos escolares.
A BBRC foi desenvolvida justamente para reduzir esse problema. Em vez de utilizar uma lista de palavras que precisa ser lida ou apresentada exclusivamente por via auditiva como a bateria CERAD (Consortium to Establish a Registry for Alzheimer’s Disease), o Teste de Memória de Figuras utiliza desenhos simples de objetos familiares. A informação visual participa da codificação inicial das figuras. Essa característica pode reduzir a influência de habilidades acadêmicas sobre a avaliação da memória. Nesse perfil populacional, BBRC trabalha com estímulos visuais e sonoros, enquanto a CERAD apenas com estímulos sonoros (o examinador ler a lista de palavras para pacientes de baixa escolaridade).
Isso não significa, entretanto, que todos os componentes da BBRC sejam completamente independentes da escolaridade. A fluência verbal e o Teste do Desenho do Relógio, em particular, apresentam maior influência educacional. Além disso, há influência da idade e da escolaridade em diferentes tarefas da bateria.
Quais funções cognitivas a BBRC avalia?
A BBRC inclui componentes relacionados principalmente a:
– Memória episódica visual
– Aprendizagem
– Evocação tardia
– Reconhecimento
– Fluência verbal semântica
– Funções executivas
– Habilidades visuoconstrutivas
– Atenção, de forma complementar.
A bateria é composta por oito componentes principais:
– Identificação e nomeação de 10 figuras
– Memória incidental
– Memória imediata
– Aprendizado
– Fluência verbal semântica com animais
– Teste do Desenho do Relógio
– Memória tardia
– Reconhecimento.
Qual componente da BBRC apresenta maior acurácia?
Entre os componentes da BBRC, a memória tardia do Teste de Memória de Figuras apresenta particular importância.
Uma revisão da literatura publicada por Nitrini e colaboradores identificou a evocação tardia das figuras como o componente com melhor precisão para o diagnóstico de demência em diferentes níveis educacionais. O ponto de corte de ≤ 5 figuras na evocação tardia aparece em diferentes estudos. Assim, também é apresentado nas recomendações brasileiras para rastreio cognitivo.
O ponto de corte, entretanto, não deve ser interpretado isoladamente. O desempenho cognitivo deve ser analisado considerando idade, escolaridade, funcionalidade e contexto clínico.
Vantagens da BBRC
Entre as principais características da BBRC estão:
– Aplicação relativamente rápida (cerca de oito minutos)
– Utilização de figuras simples e familiares
– Possibilidade de utilização em pessoas com diferentes níveis educacionais
– Menor dependência de leitura e escrita no Teste de Memória de Figuras
– Avaliação de diferentes aspectos da memória
– Inclusão de tarefas de fluência verbal e desenho do relógio
– Ampla utilização em estudos brasileiros
– Capacidade de diferenciação entre pacientes com comprometimento cognitvo leve (CCL), daqueles sem comprometimento
– Possibilidade de integração à avaliação cognitiva da pessoa idosa
Além disso, a BBRC já foi aplicada em diversos contextos como além da Doença de Alzheimer. Tais como: Doença de Parkinson, Demência vascular, Doença de Wilson. Além de avaliação cognitiva em pacientes com epilepsia. Útil também para avaliar alteração cognitiva em paciente com transtorno de humor.
Limitações da BBRC
A BBRC apresenta algumas limitações que devem ser consideradas durante sua interpretação:
– Fluência verbal e desenho do relógio sofrem influência de fatores educacionais
– Idade e escolaridade podem influenciar o desempenho em diferentes tarefas
– Resultado isolado não estabelece diagnóstico etiológico
– Rastreio cognitivo não substitui avaliação clínica ou neuropsicológica quando esta for indicada
– Alterações sensoriais, especialmente visuais e auditivas, podem interferir no desempenho
– Pontos de corte devem ser interpretados de acordo com a população estudada e os dados normativos disponíveis
– Não diferencia pacientes com CCL daqueles com síndrome demencial estabelecida
Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC)
Solicitar ao paciente para identificar e nomear em voz alta dez figuras (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde).
Comando: “Que figuras são essas?”
(não deve haver menção que o paciente precise decorar as figuras).
Registrar a quantidade de figuras nomeadas corretamente.
Não corrigir se paciente não for capaz de identificar corretamente. Aceite o nome dado pelo paciente e considere como correto na avaliação da memória.
Possíveis erros:
Erro de percepção: confundir o avião com um peixe ou o balde com um copo
Erro de nomeação: paciente faz gesto de se pentear, mas não verbaliza a palavra “pente”
Paciente deve evocar livremente as figuras mostradas na etapa anterior (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde).
Comando: “Quais figuras acabei de lhe mostrar?”
Registrar a quantidade de figuras evocadas corretamente.
Tempo máximo de um minuto (use o cronômetro abaixo)
Em geral, pouco adotado para avaliar perda cognitiva
As mesmas dez figuras são mostradas novamente, sob orientação de memorização (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde).
Comando: “Olhe bem e procure memorizar estas figuras”.
Após a exposição de 30 segundos, o examinador questiona “Quais figuras acabei de mostrar?”
Registrar a quantidade de figuras evocadas corretamente.
Tempo máximo de um minuto para evocação.
Pontuação baixa pode sugerir comprometimento da atenção
Figuras mostradas novamente sob orientação de memorização (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde).
Comando: “Olhe bem e procure memorizar”.
Após 30 segundos, perguntar: “Quais figuras acabei de mostrar?”.
Registrar a quantidade de figuras evocadas corretamente. Tempo máximo de um minuto.
O paciente deve falar a maior quantidade possível de animais diferentes durante 60 segundos
Comando: “Preciso agora que você fale o máximo de nome de animais dentro de um minuto”
Utilize o cronômetro abaixo
Orientar paciente a desenhar um relógio de ponteiros
Comando: “Desenhe um relógio de ponteiros completo marcando 02 horas e 45 minutos”
A pontuação varia na literatura. Na publicação de 1994 Nitrini et al adotaram pontuação compatível com a proposta de Sunderland.
Aqui vamos adotar os Critérios de Shulman como proposto em manual do Ministério da Saúde de 2024. Selecione abaixo uma das opções:
Solicitar ao paciente para relatar a maior quantidade das figuras (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde).
Comando: “Que figuras lhe mostrei há pouco?”
Registrar a quantidade de figuras evocadas corretamente.
Tempo máximo de um minuto.
Etapa da bateria com maior acurácia para identificar quadros de demência.
Paciente deve reconhecer as figuras em meio a outras dez novas figuras
Mostrar folha com 20 figuras contendo:
Dez figuras iniciais (sapato, colher, pente, árvore, tartaruga, chave, avião, casa, livro, balde)
Dez distratores (caminhão, ferro, limão, folha, chaleira, bicicleta, banana, porco, navio, terno).
Comando: “Aqui estão algumas figuras que lhe mostrei anteriormente, misturadas com figuras novas. Aponte as que você viu anteriormente há alguns minutos”.
Registrar o número de figuras identificadas corretamente subtraídas do número de falsas identificações.
Resultado
Identificação e nomeação: Não informado pontos
Memória incidental: Não informado
Memória imediata: Não informado
Aprendizado: Não informado
Teste de Fluência Verbal com animais: Não informado
Teste do Desenho do Relógio: Não informado
Memória tardia: Não informado
Reconhecimento: Não informado
Cronômetro Regressivo (60s)
Interpretação*:
As sugestões de ponto de corte da BBRC pelo Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia são:
Memória incidental: ≤ 4 pontos
Memória Imediata: ≤ 6 pontos
Aprendizado: ≤ 6 pontos
Memória tardia: ≤ 5 pontos
Reconhecimento: ≤ 7 pontos
Fluência Verbal Semântica (animais) por escolaridade
Analfabetos: ≤ 8 animais
1-7 anos: ≤ 11 animais
≥ 8 anos:≤ 12 animais
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Logo, devendo ser interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Perguntas frequentes
O que é a BBRC?
A Bateria Breve de Rastreio Cognitivo (BBRC) é um instrumento brasileiro de rastreio cognitivo que utiliza principalmente figuras para avaliar memória episódica e inclui tarefas de fluência verbal e desenho do relógio.
Para quem a BBRC foi desenvolvida?
A BBRC foi desenvolvida especialmente para facilitar o rastreio cognitivo em pessoas com baixa escolaridade ou analfabetismo, mas também pode ser utilizada em indivíduos com escolaridade média ou alta.
Quantas etapas tem a BBRC?
A BBRC possui oito componentes principais: identificação e nomeação, memória incidental, memória imediata, aprendizado, fluência verbal com animais, Teste do Desenho do Relógio, memória tardia e reconhecimento.
A BBRC é indicada para pessoas com baixa escolaridade?
Sim. A BBRC foi desenvolvida justamente para reduzir dificuldades relacionadas à escolaridade na avaliação cognitiva. Entretanto, alguns de seus componentes, especialmente a fluência verbal e o desenho do relógio, sofrem influência educacional.
A BBRC pode ser usada para avaliar comprometimento cognitivo leve?
A BBRC pode contribuir para a investigação de alterações cognitivas, mas a distinção entre comprometimento cognitivo leve, demência e ausência de comprometimento não deve ser feita apenas com base no resultado da bateria. Além disso, a definição diagnóstica requer integração entre desempenho cognitivo, funcionalidade e avaliação clínica.
Sugestões de leitura:
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