Por Lucas Rampazzo Diniz
Publicação: 29/09/26
O QMC8 (Questionário de Mudanças Cognitivas) é um instrumento breve de rastreio de comprometimento cognitivo em pessoas idosas. O questionário é respondido por um informante, como familiar ou cuidador, que conheça o funcionamento habitual da pessoa avaliada.
O QMC8 foi desenvolvido no Brasil a partir de uma versão inicial com 22 questões (QMC22). Então, após análise estatística, selecionaram-se oito itens com maior poder discriminativo, dando origem ao QMC8. No estudo original, o instrumento apresentou boa capacidade para diferenciar indivíduos sem comprometimento cognitivo daqueles com comprometimento cognitivo leve (CCL) ou demência em estágio leve.
O que é o QMC8?
O QMC8 é um questionário de oito itens destinado a identificar mudanças cognitivas e de funcionalidade percebidas ao longo do tempo.
Contudo, diferentemente de instrumentos aplicados diretamente ao paciente, o QMC8 utiliza informações fornecidas por alguém que conhece o funcionamento da pessoa avaliada. Assim permite investigar mudanças em atividades cotidianas e aspectos relacionados à cognição sem depender exclusivamente da percepção do próprio paciente.
Damin et al. propuseram o instrumento em publicado de 2015 na revista Dementia & Neuropsychologia.
Para que serve o QMC8?
O principal objetivo do QMC8 é rastrear alterações cognitivas em pessoas idosas, especialmente quando existe suspeita de declínio cognitivo.
Dessa forma, o questionário pode contribuir para a identificação de alterações relacionadas a:
– Memória e aprendizagem
– Orientação temporal
– Orientação espacial
– Funções executivas
– Linguagem
– Atividades básicas de vida diária
– Atividades instrumentais da vida diária
– Autonomia para atividades cotidianas
O QMC8 pode ser utilizado como parte de uma estratégia de rastreio cognitivo, inclusive no contexto da Atenção Primária à Saúde. O Ministério da Saúde incluiu o instrumento no material Identificação da Demência na Atenção Primária, publicado em 2024.
Desenvolvimento do QMC8
A versão inicial do instrumento, denominada QMC22, foi composta por 22 questões selecionadas por profissionais com experiência na avaliação de pessoas com demência.
A seleção dos itens foi baseada em questões utilizadas anteriormente em instrumentos de avaliação cognitiva e funcional, incluindo:
– AD8 (Ascertain Dementia 8)
– Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer (PFAQ)
– Índice de Katz
– IQCODE (Informant Questionnaire on Cognitive Decline in the Elderly)
– Escala de Blessed
– Outros instrumentos relacionados à avaliação funcional descritos na literatura
Posteriormente, os autores realizaram análises estatísticas para identificar ositens com maior capacidade de discriminar os grupos avaliados. Então, dessa análise resultou a versão final com oito questões: o QMC8.
As questões adotadas no modelo final do questionário têm relação com atividades básicas de vida diária e funções executivas (uso de telefone, transporte e tomar medicação), memória e aprendizado (saber fatos recentes e aprender novos instrumentos), linguagem (expressar opiniões), orientação temporal e espacial.
Como aplicar o QMC8?
Um familiar, cuidador ou outro informante que conheça a pessoa avaliada deve responder o questionário. Tal qual o IQCODE e o PFAQ.
Dessa forma, o informante deve considerar mudanças ocorridas ao longo do tempo, comparando o funcionamento atual com o funcionamento anterior da pessoa.
Contudo, não é necessário estabelecer um período cronológico específico. A orientação original é considerar se houve mudança nos últimos anos atribuída a problemas relacionados ao pensamento e à memória.
As respostas são dicotômicas do tipo “sim” (mudança a partir de estado anterior) ou “não” (ausência de mudanças). A abordagem via acompanhante, apesar de ser um dado indireto, tem a vantagem de menor influência da autopercepção do estado cognitivo pelo próprio paciente e sua escolaridade. Além disso, pode ser associado a informações obtidas através do desempenho do próprio paciente, permitindo aumento de acurácia diagnóstica.
Como calcular o escore do QMC8?
A pontuação do QMC8 varia de 0 a 8 pontos.
– Resposta “sim”: 1 ponto
– Resposta “não”: 0 ponto
-Escore final: soma dos oito itens.
Quanto maior o escore, maior o número de mudanças cognitivas ou funcionais identificadas pelo informante.
O instrumento, no estudo original por Damin et al, teve boa acurácia para distinção de pacientes com demência e comprometimento cognitivo leve, daqueles sem comprometimento.
Vantagens do QMC8
– Sem influência significativa da escolaridade, como no MEEM, fluência verbal e outros instrumentos
– Instrumento curto de aplicabilidade rápida e fácil
– Respondido por acompanhante, com melhor influência da escolaridade e do desempenho do paciente
– Indicação para uso como rastreio no contexto de saúde pública (assim como 10-CS e a bateria breve de rastreio cognitivo)
– Boa acurácia para distinção entre paciente com quadro cognitivo, daqueles sem acometimento
Limitações do QMC8
– Pouco benefício para uso em pacientes com demência moderada a avançada (CDR 2 e CDR3), pois foram excluídos do estudo original
– Necessidade da colaboração de um familiar ou cuidador para preenchimento do questionário
– Possível influência de quadros de humor ou de sobrecarga de cuidadores
– Necessidade de ajuda para aplicação caso o informante tenha dificuldade com leitura
– Não substitui avaliação clínica e neuropsicológica
Questionário de Mudanças Cognitivas (QMC8)
Interpretação*:
O QMC8 é um instrumento de rastreio. Uma pontuação alterada não estabelece, isoladamente, o diagnóstico de comprometimento cognitivo ou demência. O resultado deve ser interpretado em conjunto com a história clínica, avaliação funcional, exame físico e outros instrumentos, quando indicados.
QMC8 ≥ 2 pontos: sugestivo de comprometimento cognitivo
QMC8 ≥ 4 pontos: sugestivo de síndrome demencial
Salienta-se que a avaliação seriada é mais crucial do que uma única aplicação pontual do instrumento. Além disso, destaca-se a possibilidade de variação de resultados entre examinadores.
Ressalta-se que, mais importante do que avaliações e classificações pontuais, é a aplicação seriada do instrumento e o julgamento quanto a variações ao longo do tempo.
* Salienta-se que os instrumentos de avaliação geriátrica devem ser utilizados em conjunto com anamnese e exame físico. Logo, interpretados sob a luz de julgamento clínico.
Perguntas frequentes:
O que é o QMC8?
O QMC8 (Questionário de Mudanças Cognitivas) é um instrumento breve de rastreio de alterações cognitivas em pessoas idosas. É respondido por um familiar, cuidador ou outro informante que conheça o funcionamento da pessoa avaliada.
Para que serve o QMC8?
O QMC8 auxilia no rastreio de comprometimento cognitivo e demência, avaliando mudanças relacionadas à memória, orientação, linguagem, funções executivas e atividades do cotidiano.
Quem deve responder ao QMC8?
O QMC8 deve ser respondido por um familiar, cuidador ou outro informante que conheça bem a pessoa avaliada. O questionário considera mudanças no funcionamento ao longo do tempo.
Como é calculada a pontuação do QMC8?
O QMC8 possui oito itens. Cada resposta “sim, uma mudança” recebe 1 ponto e cada resposta “não, nenhuma mudança” recebe 0 ponto. O escore final varia de 0 a 8 pontos.
Qual é o ponto de corte do QMC8?
No estudo original, um escore ≥2 pontos foi considerado sugestivo de comprometimento cognitivo e ≥4 pontos, sugestivo de demência. Esses pontos de corte são utilizados para rastreio e não estabelecem o diagnóstico isoladamente.
O QMC8 diagnostica demência?
Não. O QMC8 é um instrumento de rastreio. Um resultado alterado deve ser interpretado junto à avaliação clínica, funcional e cognitiva da pessoa idosa e, quando necessário, à investigação complementar.
Sugestões de leitura:
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Identificação da demência na atenção primária [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024. 13 p.
Damin AE. Aplicação do questionário de mudança cognitiva como método para rastreio de demências [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2011. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5138/tde-17062011-153221/pt-br.html
Damin AE, Nitrini R, Brucki SMD. Cognitive Change Questionnaire as a method for cognitive impairment screening. Dement Neuropsychol. 2015;9(3):237-244. https://doi.org/10.1590/1980-57642015DN93000005

